Quando me vi universalizado
não foi quando encarei o espelho,
não foi quando vi de um peito
o chute de um coração.
Não me vi universalizado
no livro escrito um bom conselho
que dizia-me: a alma é leito
do amor à tentação.
Quisera eu mimosas colchas
para meu espírito meditar
sobre do que é feita alma
e qual a cor de acreditar
num Deus que cria conchas,
do barro faz Gente respirar
até desacreditarem na alma
e da Força que a fez brotar.
Quando me vi universalizado
chamei de vadia minha prima,
cortei minha barriga com as unhas,
desejei ser como a seiva entre a pressão dos meus dedos.
Me vi universalizado no ato de humildade ao assumir os meus erros.
Lembrei-me da rima: bela e singela.
Dos meus pecados fui testemunha,
quando me universalizei
não fui Deus,
só esta coisa que se supunha.
Ensaio #5 — O direito de existir na diferença: uma leitura de “Sintomas mentais e a ordem pública”, de Erving Goffman, em diálogo com “O metafísico no homem”, de Merleau-Ponty
introdução A leitura de Sintomas mentais e a ordem pública , de Erving Goffman, desloca algo que, no cotidiano, costumamos tomar como um dado factual: nossa sociedade é isso e não há como mudar. No entanto, aquilo que geralmente aparece como organização natural da vida social revela-se, pouco a pouco, como uma construção sustentada por normas, expectativas e convenções frágeis. A ordem deixa de ser um dado e passa a ser um arranjo delicado, sempre à beira do conflito. Quando esse texto é colocado em diálogo com O metafísico no homem , de Merleau-Ponty, o deslocamento se aprofunda. Se, em Goffman, a ordem é um produto social, em Merleau-Ponty a experiência humana aparece como algo anterior a qualquer sistema de normas. O existir vem antes da regra. A percepção vem antes da classificação. O corpo vivido vem antes do diagnóstico. Logo nas primeiras linhas, Goffman afirma que aquilo que os psiquiatras reconhecem como doença mental é, quase sempre, visto antes pelo público como co...