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Ensaio #5 — O direito de existir na diferença: uma leitura de “Sintomas mentais e a ordem pública”, de Erving Goffman, em diálogo com “O metafísico no homem”, de Merleau-Ponty

 

introdução

A leitura de Sintomas mentais e a ordem pública, de Erving Goffman, desloca algo que, no cotidiano, costumamos tomar como um dado factual: nossa sociedade é isso e não há como mudar. No entanto, aquilo que geralmente aparece como organização natural da vida social revela-se, pouco a pouco, como uma construção sustentada por normas, expectativas e convenções frágeis. A ordem deixa de ser um dado e passa a ser um arranjo delicado, sempre à beira do conflito.
Quando esse texto é colocado em diálogo com O metafísico no homem, de Merleau-Ponty, o deslocamento se aprofunda. Se, em Goffman, a ordem é um produto social, em Merleau-Ponty a experiência humana aparece como algo anterior a qualquer sistema de normas. O existir vem antes da regra. A percepção vem antes da classificação. O corpo vivido vem antes do diagnóstico.
Logo nas primeiras linhas, Goffman afirma que aquilo que os psiquiatras reconhecem como doença mental é, quase sempre, visto antes pelo público como comportamento ofensivo, digno de escárnio, hostilidade ou sanções simbólicas. Antes de qualquer diagnóstico, portanto, já houve um julgamento. A loucura aparece primeiro como problema público, como algo que perturba a convivência, para só depois ser reconhecida como questão médica. A desordem, assim, não começa na ausência de regras, mas no abalo das expectativas que organizam a interação.
Merleau-Ponty, por outro lado, insiste que o ser humano não pode ser reduzido a um objeto entre outros. Ele é uma existência que percebe, sente, sofre e interpreta o mundo a partir de uma perspectiva singular. Há sempre algo no humano que escapa às categorias externas. A experiência excede as classificações.
É nesse ponto que Goffman e Merleau-Ponty se encontram, ainda que partindo de lugares diferentes. Se, em Goffman, a desordem surge quando alguém falha em sustentar os rituais da interação social, em Merleau-Ponty o próprio existir já é, em si, um excesso em relação a qualquer sistema que tente organizá-lo por completo. Assim, tanto a desordem quanto a loucura podem ser pensadas menos como fatos naturais e mais como julgamentos sociais lançados sobre formas de existir que saem do esperado.
Este trabalho parte desse encontro. Trata-se de pensar a insanidade e a desordem pública não como essências fixas, mas como efeitos de classificação. Pensar, sobretudo, até que ponto aquilo que chamamos de loucura não diz menos sobre um “defeito” do indivíduo e mais sobre os limites das normas que tentam contê-lo.

o social em Goffman e a fragilidade de sua ordem

Em Goffman, a vida social é organizada por um conjunto de regras que quase nunca aparecem de forma explícita. Não se trata apenas de leis escritas, mas de normas sutis que regulam gestos, falas, posturas, silêncios e até emoções consideradas aceitáveis em cada situação. Essas normas constituem a base invisível da convivência.
Entrar numa situação social é sempre entrar num jogo cujas regras já estão em funcionamento. Espera-se que cada um saiba quando falar, quando se calar, como reagir, como se portar. Esse saber não vem de um manual, mas da repetição, do constrangimento e da observação. A ordem pública, nesse nível, não é garantida pela força, mas por uma adesão quase automática a esses códigos.
A impropriedade surge quando esse acordo silencioso falha. Quando alguém age fora do ritmo da situação, algo se desloca. Ri quando não se esperava riso, fala quando se exigia silêncio, reage de modo desconectado do clima emocional do ambiente. A desordem, aqui, não é crime: é estranhamento.
Esse estranhamento incomoda porque revela algo essencial: a ordem é frágil. Ela depende o tempo todo da colaboração dos corpos. Basta um gesto fora do compasso para que tudo pareça vacilar.

loucura, impropriedade e julgamento social

Para Goffman, muitos comportamentos classificados como psicóticos podem ser compreendidos, inicialmente, como formas extremas de impropriedade situacional. O indivíduo não apenas falha ocasionalmente nas regras da interação, mas parece incapaz de manter, de maneira estável, o ritmo esperado das relações sociais. Seu comportamento passa a ser visto como imprevisível, inadequado e, muitas vezes, ameaçador.
Contudo, Goffman é cuidadoso ao mostrar que não existe um critério absolutamente objetivo que separe, de forma definitiva, o comportamento considerado “normal” daquele rotulado como “louco”. Há impropriedades que são toleradas — como as do bêbado, do excêntrico, do jovem impulsivo, do estrangeiro cultural — e há outras, muito parecidas, que recebem o selo da insanidade. Isso mostra que a loucura não é apenas um dado natural, mas uma decisão social, um rótulo que se cola a determinados corpos e condutas.
A loucura, assim, não é apenas um problema do indivíduo. Ela é também uma dificuldade coletiva: dificuldade de sustentar a interação, de interpretar o outro, de reconhecê-lo como participante legítimo do mesmo mundo simbólico. Quando as regras do jogo social deixam de funcionar, surge o desconforto, e com ele o julgamento.
O comportamento ofensivo, antes de ser doença, é ruptura de expectativa. Ele quebra aquilo que se esperava daquele corpo, naquela situação, naquela sociedade. A partir daí, instala-se o julgamento. E, junto com ele, muitas vezes vem a retirada da empatia. O louco passa a ser visto como alguém que já não compartilha plenamente do mesmo mundo.

o metafísico no homem: experiência antes da norma

Merleau-Ponty propõe um deslocamento radical da forma como o ser humano é tradicionalmente pensado. Para ele, o homem não é uma soma de funções, nem um objeto plenamente explicável por descrições científicas. A ciência descreve mecanismos, mas não esgota o sentido da experiência.
O ponto central de sua reflexão é a percepção. O mundo não se apresenta como algo neutro e pronto. Ele é sempre vivido a partir de um corpo, de uma história, de uma sensibilidade. O ser humano não está no mundo como uma coisa entre coisas — ele está no mundo como alguém que o vive.
É isso que Merleau-Ponty chama de metafísico: não algo distante da vida, mas aquilo que atravessa silenciosamente toda experiência humana. Toda vez que alguém se pergunta pelo sentido da própria vida, da própria dor, da própria diferença, já está exercendo essa dimensão metafísica.
Nesse horizonte, a loucura não pode ser pensada apenas como erro da razão. Ela passa a ser compreendida como uma forma alterada de relação com o mundo. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de reconhecer que, mesmo na ruptura, ainda há experiência, ainda há existência, ainda há sentido.

diferença, alteridade, julgamento e consequências

Merleau-Ponty afirma em seu texto O metafísico no homem: “Não atingimos o universal abandonando nossa particularidade, mas fazendo dela um meio para alcançar os outros.” Essa frase muda profundamente a forma de pensar a diferença. Não é apesar da singularidade que nos comunicamos, mas por meio dela. A diferença não é obstáculo ao comum: ela é o próprio caminho.
Quando esse pensamento é colocado em diálogo com Goffman, algo se ilumina. A loucura passa a aparecer não apenas como falha individual, mas como efeito de uma falta de tolerância social diante do diferente. O comportamento que rompe a norma não é recebido como convite à compreensão, mas como ameaça.
O estranho causa desconforto. Aquilo que causa desconforto tende a ser afastado, silenciado ou institucionalizado. O louco é aquele com quem não se sabe lidar. E, quando não se sabe lidar, julga-se.
Nesse gesto de julgamento, algo grave acontece: a classificação retira, em muitos casos, o direito elementar de ser. O sujeito deixa de ser alguém e passa a ser apenas um rótulo: doente, caso, sintoma, prontuário. A singularidade é reduzida a um erro.

sistema, sintoma e delito

Goffman escreve que “certos delitos particulares” são agora chamados de sintomas. Isso é profundamente revelador. O sintoma não é apenas sinal clínico: ele é, antes, infração de uma norma social. O sistema define o que pode e o que não pode, o que é aceitável e o que é ofensivo.
Merleau-Ponty, por sua vez, fala de sistema como princípio interno de organização da existência. Há um modo próprio pelo qual cada sujeito organiza sua experiência do mundo.
A loucura nasce justamente quando o sistema das normas sociais (sociedade) e o que sente/processa a experiência (corpo) entram em choque.
Aquilo que, existencialmente, é apenas outro modo de ser, socialmente passa a aparecer como delito, falha, sintoma. A desordem, então, não é um caos natural. Ela é resultado do conflito entre formas diferentes de organizar a vida.

Eu entre o dentro e o fora: norma, sistema e exclusão

O Eu não nasce pronto, nem isolado. Ele se forma entre o que se vive por dentro e aquilo que o mundo permite viver por fora. A subjetividade cresce atravessada por normas, expectativas e limites. Aprende cedo o que pode ser, o que precisa esconder, o que deve cortar de si para caber.
O problema é que esse social no qual o Eu se forma não é neutro. No Ocidente contemporâneo, ele é fortemente moldado por um sistema econômico e cultural que prioriza desempenho, produtividade, adaptação e normalização. Não se trata apenas de organização, trata-se de seleção. Aquilo que não funciona, que não rende, que não encaixa, tende a ser descartado, medicalizado ou empurrado para fora do campo do visível.
Nesse contexto, a loucura não aparece apenas como sofrimento psíquico, mas também como efeito colateral de um mundo que não foi feito para sustentar a diferença. O sistema não pergunta quem o sujeito é; pergunta se ele funciona. Quando não funciona, vira problema.
Goffman ajuda a compreender como esse julgamento acontece no nível microscópico da interação. Merleau-Ponty, por outro lado, mostra que essa eliminação simbólica da diferença atinge aquilo que há de mais fundamental no humano: sua singularidade. Cortar o que não encaixa é, muitas vezes, cortar aquilo que torna alguém verdadeiramente alguém.

o que isso ensina à psiquiatria, à neurociência e à psicologia

Goffman mostra que a psiquiatria surge, em parte, como tentativa de interpor uma perspectiva técnica entre o indivíduo considerado louco e a reação moral violenta da sociedade. Isso tem um lado importante: substituir a punição pela noção de tratamento.
Mas há também um risco: que o julgamento apenas troque de linguagem. Saímos do julgamento moral e entramos no julgamento técnico. O sujeito continua reduzido, agora revestido de cientificidade.
Merleau-Ponty radicaliza esse problema. Se toda experiência é singular, então nenhum diagnóstico pode esgotar o que um sujeito é. Nenhum modelo neuroquímico, nenhum protocolo clínico, nenhuma estatística substitui a pergunta essencial: como esse sujeito vive o mundo?
O que esses autores ensinam aos profissionais da mente é algo simples e difícil: a alteridade da consciência não é um erro a ser corrigido, mas a base ética de qualquer cuidado. Sem esse reconhecimento, a clínica corre o risco de apenas sofisticar a exclusão.

conclusão: o direito de ser estranho ou simplesmente o direito de existir na diferença

Ao longo deste trabalho, a loucura e a desordem pública deixaram de aparecer como fatos naturais e passaram a se mostrar como efeitos de classificação, julgamento e inadequação a um mundo organizado por normas. Em Goffman, a desordem surge na fratura das expectativas da interação. Em Merleau-Ponty, a existência aparece como algo que nunca se deixa capturar completamente por regras. Quando essas duas perspectivas se encontram, algo decisivo se revela: a loucura não é apenas problema do sujeito, mas também problema da ordem que o julga. Aquilo que chamamos de desvio é, muitas vezes, o nome social dado ao que escapa.     No fundo, este trabalho toca numa questão ética fundamental: o direito de ser estranho. O direito de não caber perfeitamente. O direito de existir sem ser imediatamente corrigido, rotulado ou reduzido a um diagnóstico. Não como romantização do sofrimento, mas como reconhecimento de que a diferença não é um erro do sistema, mas aquilo que o sistema nunca consegue capturar por completo.     Pensar a insanidade em diálogo com a desordem pública é, portanto, pensar os próprios limites da normalidade. É reconhecer que a vida sempre escapa às formas que tentam organizá-la. E que toda tentativa de normalização absoluta carrega, em silêncio, o risco de sufocar aquilo que há de mais vivo na experiência humana:

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