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Ensaio #4 - Matisse, Todorov e O que é Arte?

    Introdução

    Matisse sonhava com uma arte sem sentimentos conturbados, que não carregasse conflito problemático, mas fosse puramente equilibrada, tranquila, sem temas de inquietação.



      Por mais que eu particularmente goste do ato de conhecer coisas sem saber muito sobre o autor, há questões específicas que chamam a mim atenção, por exemplo: o ano em que coisas são feitas, ditas, expressas, nascidas e mortas.


    Matisse nasceu em 1869 e foi morrer no ano de 1954, viu muita coisa, apreendeu e teve tempo de pensar muita coisa, isso enquanto artista, alguém que gosta de fazer coisas bonitas.


      Enquanto filósofo — quem diria que me chamaria assim algum dia 
 seria de bom tom definir o que quero dizer por bonit-, mas não preciso. Aqui eu quero que pegue o que conhece de senso comum, do que já ouviu falar, é sobre isso aí que falo. Se um dia já ouviu essa palavra, quero que use o significado com que isso te foi apresentado. E se algo que eu falar aqui entrar em conflito com o que você conhece, pense. Apenas pense, deixe marinando, vê como mudam-se os temperos na boca.


       Matisse tem um livro de reflexões. Em suas reflexões traz a harmonia das cores como uma composição musical. Diz coisas como acorde cromático vivo e assombrosamente me espanta como são boas as palavras que saem de sua boca. Era um verdadeiro pintor. Enxergava a pintura, o ato de cumprir o artifício artístico no plástico, como o que é: composição de cor e formas. Não se preocupava ele próprio de trazer críticas, mas de alcançar o belo. Ou alguma representação e expressão disto.





    Todorov em seu livro gêneros do discurso debate brevemente, mas com muita maestria: o que é literatura? O que é? Uma estruturação humana, óbvio. Ele aponta como a artes plásticas começou seu caminho com certa utilidade, e arrisco eu que as próprias cantigas, mitos e fábulas tinham também seu caráter utilitarista, para mais do que poético, no sentido reprodutivo.


    Com o avanço das tecnologias de filme, os aprimoramentos tecnológicos das câmeras, não havia mais tanto a necessidade utilitarista de contratar alguém para pintar um registro, poderiam só contratar um fotógrafo. Aquele pintor que antes, quando não estava pintando encomendas, treinava, fez do treino seu próprio ganha-pão e assim aproximando-se cada vez mais de coisas como os estilos, os impulsos e vestígios até as
 vanguardas modernas.

    Imagino Mario de Andrade falando coisas como: fodam-se as pinturas que imitam a vida! Anita, por favor, desapegue dessas formas, arrisque-se mais nas cores, não aprendeu nada com Matisse é?

        Nem sei se tal diálogo é algo que poderia mesmo acontecer. Ponto é: Henri Matisse escreveu "A escolha de minhas cores não se baseia em nenhuma teoria científica, mas na observação, no sentimento, na experiência de minha sensibilidade. Procuro pôr cores que interpretem minha sensação."

    O que é Arte? Escrevi nalguns poemas bastante sobre esse assunto. Sinto raiva da minha juventude enquanto poeta, sendo jovem e não conhecendo ninguém com quem pudesse trocar de verdade, mas então abrindo caminhos mesmo que em tão pouco tempo, a vida é isso: um dia após o outro, e toda mudança causada, toda ação que perdura, se faz assim também: um dia após o outro. Arte é o trabalho que escolhemos dedicar dias após o outro de atenção, Arte foi todo um sistema estrutural que de tanta vida aplicada rompeu, tornando-se assim algo que existe hoje em cada pessoa, um potencial silencioso, ali, independente de tudo, tal qual a capacidade de aquisição da Língua, tal qual a mais pura fé infantil.


       E tudo soa muito lindo jogado ao ar. Mas escrever Ensaios não nos permite firmar-nos no vento, mas numa estrutura sólida, num eixo temático fixo. Não é apenas uma Conversa Aberta o que faço aqui, mas quero lhe apresentar sensibilidades, um pouco sobre Arte, sobre Cultura, sobre Matisse, Literatura, nosso belo potencial humano de criações. Nosso belo potencial humano que não vale de nada se não soubermos também conviver com o ecossistema ao redor.

       Matisse vendeu muitos quadros, participou de vanguardas, passou pelas guerras mundiais e perseguições nazistas, ainda assim, o quanto contribuiu para o ecossistema? Quanto fez que induziu a parar essas guerras? Era um humano espiritualizado, dizem, mas o que fez para melhorar a educação do mundo e as desigualdades territoriais? Genuinamente, não sei. Não sei tudo. Mas sei o que é Arte e o que Ela pode fazer. Como ela interage, se enlaça nos meios, desenvolve. Penso em Van Gogh. Vendeu muito pouco, quase nada em vida. Tornou-se astro, capa de caderno, estampa de camiseta no pós-coração-batendo. Apenas o Espírito continuou. Meio como Jesus Cristo também. Mas Matisse? Também?

        Queria conversar com Todorov sobre todas essas coisas.

O que é Arte?

       Qualquer pessoa interessada em interpretar culturalmente a arte precisa ter na cabeça a inter-relação íntima e complexa entre: cultura e sociedade; crenças e conceitos dominantes; e eventos e instituições sociais dominantes. Mesmo assim, quando rolam "evoluções estilísticas" (transições artísticas) não basta analisar só culturalmente determinada obra. Para compreender bem o contexto por trás (motivações, etc.) é preciso ampliar consideravelmente para procurar as causas possíveis de tais escolhas, como também guerras, conflitos sociais internos, pragas e desastres naturais.

    Os sociólogos, normalmente, empregam o conceito de "estrutura de personalidade" como um padrão de organização mental característico de uma comunidade, cultura ou período histórico.



   Existe um historiador da arte chamando Worringer que buscou entender a relação do "homem primitivo" com a arte [e a religião]. Basicamente disse que tanto a arte quanto a religião eram maneiras de esquematizar e abstrair seu ambiente físico "colocando entre si mesmos e a natureza uma rede de imagens espirituais e abstratas".

    Na Arte existe um esforço por parte de alguns artistas em criar contribuições que buscam beneficiar a sociedade. Por outro lado, existem os artistas que "repulsam" esse esforço intelecto-social e, na realidade, prezam pela exaltação de sua identidade pessoal.

    Na construção do que se entende por artistas ao longo das eras, pode-se dizer que a Arte-Em-Si nunca existiu isolada do resto da sociedade.

    John Berger em seu livro se pequenos ensaios chamado "Modos de ver", diz que o olhar é sempre escolha. Também que a realidade são convenções das aparências e que isso é o que justifica a câmera ser uma enorme transição cultural artística.





    Além disso, amplia o esquema de negócios da Arte, mostrando que muito do valor comercial de uma obra está mais na sua história que puramente as técnicas e impressões estilísticas. Critica que isso dá ao trabalho plástico um ar de misticidade e que, nalgum grau, nos distorce os sentidos frente a uma possível efetiva apreciação de Arte.

    Para mim já é inútil debater o que é Arte. Penso que isso já é algo dado pelo mundo e que cabe ao presente pensar o que fazer com isso que o mundo nos apresenta enquanto arte.


    Enquanto artista, saindo um pouco do tom ensaístico, penso que posso fazer o que eu quiser com arte, mas, principalmente, incentivar mais pessoas a fazerem suas próprias artes, pois é como disse o historiador: ela nos ajuda a lidar com o abstrato do cotidiano.


    Sentimentos, relações humanas, o mistério sobre o dia de amanhã, a falta: tudo faz parte do novelo do campo do abstrato, mas, ainda assim, muito presente no cotidiano. A arte materializa o que muitas vezes parece fantasma nas nossas mãos.
    

    Talvez Matisse tenha um pouco de razão ao apenas pintar o que lhe convém agradável e harmonioso. Mas, sendo inteligente e sensível, acho surpreendente existirem artistas que só ficam nisso ao longo da carreira. Penso que ali já morreu a Arte e só sobrou o negócio.


    Para bem sobreviver, na verdade mesmo, é preciso encontrar o meio termo. O melhor ponto para nós, artistas, dentro deste espectro. Somos artistas e queremos todos fazem coisas bonitas, mas se as coisas bonitas servem somente ao negócio... Não sei. Talvez um sistema mercantil, capitalista, de produção exacerbada e manipulação de massas seja exatamente sobre isso. 




        

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