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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Conversa Aberta #9 - 2025

Começo a escrever este memorial com o coração entristecido. Fui abatido e me enterraram vivo. Mas eu mereço. Encerro assim então meu 2025: morto. O que é bom. A morte é o começo de um renascimento. Daqui, só transformação. Como foi meu 2025? O que eu vivi? Foi certamente um ano ruim, mas muito bom. Talvez só tenha aprendido tanto num ano quando ainda era apenas um bebê. Antes, se não era capaz de decodificar os signos da alma, hoje, ao menos, consigo entender por onde começa um trabalho de tradução. Escutar é uma das habilidades mais bonitas e preciosas. Aprendi também nesse ano de 2025 que humildade e responsabilidade são difíceis de sustentar. Quero ser um humano forte, então preciso saber sustentar coisas difíceis. Pretendo me fortalecer na academia para o ano de 2026. Mas também me fortalecer na mente, no espírito, no emocional. Quero casar. Mas ser famoso, uma celebridade, também. O que vai vir antes? Será que algum dos dois chega? Não sei sem em 2026, mas em 2025 certamente camin...

Ensaio #5 — O direito de existir na diferença: uma leitura de “Sintomas mentais e a ordem pública”, de Erving Goffman, em diálogo com “O metafísico no homem”, de Merleau-Ponty

  introdução A leitura de Sintomas mentais e a ordem pública , de Erving Goffman, desloca algo que, no cotidiano, costumamos tomar como um dado factual: nossa sociedade é isso e não há como mudar. No entanto, aquilo que geralmente aparece como organização natural da vida social revela-se, pouco a pouco, como uma construção sustentada por normas, expectativas e convenções frágeis. A ordem deixa de ser um dado e passa a ser um arranjo delicado, sempre à beira do conflito. Quando esse texto é colocado em diálogo com O metafísico no homem , de Merleau-Ponty, o deslocamento se aprofunda. Se, em Goffman, a ordem é um produto social, em Merleau-Ponty a experiência humana aparece como algo anterior a qualquer sistema de normas. O existir vem antes da regra. A percepção vem antes da classificação. O corpo vivido vem antes do diagnóstico. Logo nas primeiras linhas, Goffman afirma que aquilo que os psiquiatras reconhecem como doença mental é, quase sempre, visto antes pelo público como co...

Conversa Aberta #8 - Observador

 Eu reparei, ontem, no homem empurrando um carrinho de bebê sem o bebê. Também reparei no cobrador do último ônibus do dia tirando os óculos e, com o dorso das mãos, coçando ambos os olhos. As quatro meninas conversando no canto do ponto; mais ao fundo, alguém que parece cauteloso e opta por manter-se escondido na escuridão; as duas pessoas que estão de mãos dadas, mesmo sem a intimidade de um casal; adolescentes gritando, brigando, brincando, interagindo, passando pelos seus dias pelas ruas, em grupo.  No poste, bem no topo circular de seu concreto, um passarinho me observa. Noutros cantos, vejo outros pássaros em árvores, balançando galhos, fazendo com que rodopiem pequenas folhas da copa até o chão. Há partes azuis e cinzas no céu, cujo horizonte reflete amarelado, como a parte muito mole de uma goiaba que estragou.  Fofocas chegam ao pé do ouvido, trazidas pela atenção. Fico em silêncio e escuto meu ao redor. Abro os ouvidos tanto quanto os olhos. Reparo no quão difer...