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Conversa Aberta #8 - Observador

 Eu reparei, ontem, no homem empurrando um carrinho de bebê sem o bebê. Também reparei no cobrador do último ônibus do dia tirando os óculos e, com o dorso das mãos, coçando ambos os olhos. As quatro meninas conversando no canto do ponto; mais ao fundo, alguém que parece cauteloso e opta por manter-se escondido na escuridão; as duas pessoas que estão de mãos dadas, mesmo sem a intimidade de um casal; adolescentes gritando, brigando, brincando, interagindo, passando pelos seus dias pelas ruas, em grupo.

 No poste, bem no topo circular de seu concreto, um passarinho me observa. Noutros cantos, vejo outros pássaros em árvores, balançando galhos, fazendo com que rodopiem pequenas folhas da copa até o chão. Há partes azuis e cinzas no céu, cujo horizonte reflete amarelado, como a parte muito mole de uma goiaba que estragou.

 Fofocas chegam ao pé do ouvido, trazidas pela atenção. Fico em silêncio e escuto meu ao redor. Abro os ouvidos tanto quanto os olhos. Reparo no quão diferente é aquele sotaque. Quão igual são nossos assuntos. Será que querem salvar o mundo? As crianças ainda são apenas crianças. Brincam e dão risada e querem atenção e amor. Não encontro tão fácil o amor. A desconfiança entre nós parece insuperável. Reparo os obsessores, os espíritos perdidos. Com a cabeça no mundo, rezo um rezo pedindo encaminhamento para os que me atravessam. Espanto visões que não me pertencem e volto para a concretude do concreto, a sobrancelha envergonhada, o olhar que se desvia, as mãos em celulares o "Deus abençoe" de algum estranho que me traz genuína paz apesar do surpreendente contato.

 Recebo a notificação de ar: ruim, como se não fosse todo dia isso. Então lembro porque escolho estar o mais próximo do frescor de alguma mata florestada, como são bonitas as surpresas da natureza: passa a borboleta com suas asas de plástico, aveludadas, em padrões que lembram aquela rocha ágata e então desejo em mim todos os nomes pois imagine saber diferenciar tudo, entender o pessoalmente de tudo, toda particularidade, diferença, porquê aquilo é aquilo, não isso (e vice-versa).

 Observo o pássaro que me observa, sinto inveja das palavras que lhe convém. Esse passarinho será melhor observador que eu?

 Quanto deixo passar na vida por simplesmente observar menos e mais pensar, projetar, colocar uma opinião e julgamento antes de contemplar o que está na minha frente? Há uma sede por entendimento que pode por vezes matar a efetividade e realização de alguma existência, tudo porque quando tentamos demais entender algo, tal qual o fóton observado no experimento da dupla fenda, o algo (vivo como é) reage, transforma, se deixa afetar, altera seu comportamento não porque simplesmente sim, mas porque há um observador que não está só observando, percebendo, mas, talvez, esperando algo, mesmo que sejam respostas, estímulos. Faz sentido?

 Escrever é saber que deixo registros para algum observador. Mais que um observador, um leitor. Um observador de letras, códigos, mas também decodificador delas. Um observador não deveria decodificar nada. Apenas observe, oras. Veja. Contemple. Tal qual a preguiça diária de um gato que parece gostar de ter seu lado caçador ativado, mas no geral passa os dias se alongando, enrolando-se no rabo, curvando sua coluna, rodopiando o rabo e buscando atenção quando bem deseja.

 Um gato também é melhor observador que eu.

 Gatos caçam pássaros inclusive.

 Observo os detalhes e percebo, não sou observador de mundo, mas leitor. Também escritor e personagem. O livro inteiro com todas as suas nuances e complexidades. Particularmente me considero uma narrativa medíocre, cliché, mas gosto da história que vivo. Me sinto tão próximo de Deus, talvez o maior observador de todos. Me observa nos erros, nos acertos; me acompanha e distancia e avisa de sua distância e aproximação. Me dá bronca e me ama como eu sou. Me acolhe, ri de mim e comigo. Zomba se for necessário, mas sempre com carinho.

 Sendo alguém que quer ser um bom professor e, consequentemente, um bom educador, é preciso saber observar. A gente precisa enxergar quem são as crianças, suas necessidades. O mesmo para os adolescentes.

 É preciso saber observar sem julgamento algum. É preciso entender que amor é sim variável da função que faz ume buene educadore (parece italiano?).

 A violência está por aí. Não precisa ser bom observador para isso. Não precisa nem observar, basta viver, em algum momento vai sofrer violência, impossível passar impune dela ao longo da vida. Estamos nesse ciclo. Normalizamos esse tipo de vivência, o que é lamentável.

 Lamentável mesmo, na efetividade, é perceber que normalizamos no Ocidente, consequentemente suas colônias, incluso o Brasil, toda violência. Silenciamos vítimas, protegemos agressores, diminuímos dores. Somos horríveis, enquanto sociedade. Isto é o que concluo a partir das minhas observâncias (e aqui eu nem estou decodificando nada, apenas é o que ocorre: pessoas apanham na rua e o silêncio é abissal).

 Lembro de um dia que meu irmão mais novo, com dois anos na época, começou a apanhar de meu pai, que gritava e brigava alto. Minha mãe observava, não sei o que sentia ou pensava, mas eu me sentia constrangido toda vez que isso acontecia. Mas também não pensava muito sobre, pois tinha nove anos e ainda vivia muito em mim. Sei que uma senhora apareceu para dizer "é dia das crianças, assim que tá tratando a sua?" (algo do tipo) e meu pai apenas mandou a velha calar a boca, que ela não tem que se meter na criação dos filhos dele. Meu outro irmão não sei o que fazia, mas também devia estar em silêncio sentindo algo, como eu e, possivelmente, minha mãe.

 Nessa situação eu era apenas um observador. Uma criança que está observando a situação que ocorre e por isso vira lembrança. Não carrego raiva do meu pai por esta situação, apesar de ser dela que lembro mais na memória.

 O sentimento de mágoa, essa tristeza que se sente injustiçada, vem pelo acúmulo de situações tantas que algumas lembro em flash, outras blackout, outras nítidas como se eu fosse apenas um observador, não um objeto/sujeito experienciando diretamente o trauma.

 Quando penso em ser um bom educador é porque eu gostaria de ter tido ume buene professore/educadore. É porque sinto que me faltou fortemente alguém que pudesse falar comigo sobre violência doméstica, abusos e coisas do tipo.

  Passei a infância inteira sem confiar nas pessoas. Mesmo tendo meu irmão mais novo, o do meio. Ou talvez eu não soubesse o que era confiança ou a importância disso e fui apenas um reagente do espaço, sem plena consciência, um verdadeiro observador.

 Talvez as crianças sejam as melhores observadoras de todas e, talvez por isso, a necessidade urgente de bons exemplos para elas.

 Será que crianças são melhores observadoras que Deus?


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