Eu tô vivo. Respirando, e sempre que vejo que estou travado na escrita começo pelo óbvio.
Algo que aprendo cada vez mais ao longo dos anos é o quanto o óbvio não só precisa ser dito, mas internalizado. A internalização se faz a partir da repetição. Estou aprendendo que é bom interromper ciclos. Aprendo que a vida é extensa, longa e tão bonita. Mas sou também um bicho assustado. Sou tanta coisa.
É bom ser muita coisa. Diz muita coisa ser um monte de coisa. O silêncio a respeito das coisas diz um monte de coisa e, caramba, não há nada melhor no mundo que o dizer.
Algo muito específico a respeito da humanidade me irrita. Não sei dizer exatamente o quê, mas é isso que não entendo qual a diferença é conceitualizar ou não. Vai ser capaz de mudar o curso do rio? Esse rio tá se construindo ou já tá dado, pronto?, é destino a gente cair num fim absoluto ou há como as coisas serem diferentes?, a humanidade está fadada ao caos ou é possível sair da inércia?
Ultimamente, o tempo vem me mostrado algo, me dando respostas para isso que ainda não sei o que é, mas tateio. Estou nesse lugar orgânico e deveras sou mesmo um corpo com alma, espírito, chame-lá-do-quê. Sabe o que falo.
O tempo? Tudo o que tenho para preencher de fato é o tempo. Tudo o que conheço está de fato mergulhado no tempo, não há nada que me seja mais precioso do que ele!, e o que estou fazendo neste tempo? Eu, eu terra pessoa?, ou Eu?, Eu-Espírito-Alma!, essa coisa que você também é.
O tempo? A gente vive como no tempo? Coisas condicionam o nosso tempo? Ele não é algo construído, é o oceano; um oceano elástico, vibratório, gravitacional; um tecido, uma gelatina, onde estamos inserides; onde se nada, faz pirueta, trabalha, precisa pagar conta; onde socializa, envelhece, come, caga. É o espaço-Tempo, onde a vida se manifesta, onde as coisas acontecem e, então, percebo: não há certo ou errado, não há destino, nem regra alguma, que não a Lei. Lei essa a qual nós meros mortais não temos acesso nenhum ao cerne, comemos apenas de suas beiradas e chamamos tudo isso de ciências humanas, ciências exatas, ciências da linguagem, Filosofia. No fundo, tudo é Filosofia, e Deus apenas um conceito superior que permitiu tudo isso.
Até a maldade? Sim. Com o coração pesado, até a maldade, até o pecado.
Estive pensando nos meus maiores pecados ultimamente. Nas minhas maiores bençãos.
Sabe, não sou nada demais. Mas busco o que vale mais que o ouro. Estive pensando: que minhas riquezas materiais sejam o que há de menor em mim. Que mesmo com todo dinheiro do mundo, isso seja ainda o que tenho de menos precioso.
Minha pele está me irritando com suas espinhas. Minha alimentação ainda não está perfeita. E sinto que ando andando perto demais do fogo, podendo me queimar a qualquer momento. Sinto também que volta-e-meia estou naquele limbo onde sinto que faço e construo coisas e possibilidades grandiosas ao mesmo tempo que nada faço, nada sou, nada de impactante há e está, de fato, se materializando.
Então, penso. Respiro. Lembro que estou vivo. E, então, volto para a imagem das vacas e cavalos na margem no rio sujo que do trem posso ver. Volto para a textura das minhas mãos, o sangue que apenas sinto pulsando, o suor da nuca, a boca seca, os dedos que desejam escrever, a mente que sinto que se perde e perde e não sabe onde quer chegar. Mas quer chegar. Cultivar o impressionante, o extraordinário. Penso. Não há nada para pensar. O tempo passa. O que faço nesse tempo?
Tenho uma hora para sentir passar. Passo essa uma hora aqui, escrevendo. Escrevendo este nada que pode significar tudo, pois não é assim que as coisas mais preciosas se amostram?
Que tristeza senti hoje. Tendo de pedir para uma pessoa se afastar. Precisando dar a notícia ruim para alguém. Simulando alguma justiça em prol de uma real justiça. Penso. Me vejo desnorteado, escolhendo algumas batalhas que não sei se são justas, boas, reais ou só levianas. Não sei mais o que é ou não leviano. Será que eu deveria estar vivendo minha vida diferente neste tempo? Ou será que é exatamente isto que eu deveria estar fazendo? Me conta. Há um Deus. Sim. Já não questiono O Criador. Sua existência não questiono. O que questiono são outras coisas. Questiono meu propósito. Questiono os riscos, o que vale a pena, a perdição da minha vida, se bem aproveito minha existência. Acho que sim, até depois não saber mais.
Eu amo abraços. E acho que sinto a energia dos outros. Acho que consigo mesmo sentir a energia das pessoas. Penso, será que as pessoas também sentem a minha energia?
Eu amo um monte de gente, mas não falo para essas pessoas que as amo. Tenho medo do meu amor assustar ou machucar, sem que eu perceba. Tenho medo de tanta coisa. Me torno um adulto, parece que o tempo me amadurece, mas ao mesmo tempo parece que ainda sou apenas uma criança. Tantas coisas difíceis, tantas encruzilhadas, e eu quero fugir de tudo. Ou melhor, quero me manter parado, sem fazer escolha alguma. Apenas vendo as vacas, os cavalos e encarando este rio sujo. Mas do que adianta uma porra dessa? Eu deveria ter cuidado com as palavras que uso? Sinto tanto medo de ser um fracassado, uma decepção. Talvez seja meu destino ser um fracasso, uma decepção. Meu propósito talvez seja ser apenas um humano medíocre, um homem normal. Uma pessoa que ama abraços, que não fez nada extraordinário, mas que se permitiu muito. Se permitiu todos os erros, todos os acertos, todos os amadurecimentos e então voltar ao caminho-do-meio. Voltar para o Caminho. O único Caminho.
Não queria me afastar de ninguém. Sinto que a vida passa cada vez mais rápido. Lembro como se fosse ontem os meus dez anos. Lembro dos meus vinte anos, comemorei na loja de roupa que trabalhava. Meus trinta anos ainda não chegou. Estou nos vinte e seis anos. Uma idade surpreendente.
Estive no banho conversando com o terrinha. Falei para ele, temos vinte e seis anos. Nossa própria casa. Pagando nosso próprio aluguel. Não temos renda fixa de um trabalho, mas temos a bolsa da universidade, fazemos uns bicos aqui e ali, temos uma pequena ajuda da mãe, avó, pai. Acabei de matar um pernilongo. Gosto de matar pernilongos, mas também que eles sirvam de alimentos para as aranhas e lagartixas. Gosto de lagartixas. Não tenho um emprego fixo, mas consegui finalmente ter meu próprio espaço, meu próprio cafofo. Estou muito grato por essa conquista. Estava doente ontem; durou menos de 24h a doença no meu corpo. Já faz um tempo que estou aqui escrevendo, um escrevendo por escrever.
Minha vida dos sonhos? Eu vivo minha vida dos sonhos. Todo dia acordo, durmo, como, sou dono do meu tempo, mesmo quando não sou. Consigo ser vagabundo. Consigo ser precioso. Consigo tanta coisa linda, mesmo sendo apenas mais um pecador, um não-merecedor. Mas talvez eu mereça sim, tudo. Mereço o mais lindo, o mais belo. Eu tive uma vida tão dura, com tanto sofrimento. Tive de aprender um monte de coisa óbvia sozinho, tive de me criar. Eu me criei. E encontrei Deus, sozinho, no meio dessa autocriação. Eu mereço todo o amor, toda a paz, todas as belezas lindas, extraordinárias. Mereço as vestimentas mais bonitas, as jóias mais preciosas, os amores mais gostoso e apaixonantes, as alegrias mais leves, o teto mais aconchegante, a comida mais saborosa, as pessoas mais gentis e legais. Eu mereço tudo de bom, apesar de tudo de ruim que um dia já fiz.
Deus, me perdoa. Sei que já pedi mil vezes perdões. Ou talvez não tenha nem chegado perto disso. Mas, Deus, me perdoa. Me perdoa. Eu mereço esse perdão, eu acho. Não que eu seja alguém para ditar se mereço algum perdão ou não. Quem deve ditar isso é você, meu Deus. Meu Deus. Apenas meu. De mais ninguém. Você é meu Deus. O Deus que me diz: ...; o que você me diz? O que você quer me dizer? O que você poderia me dizer?
Memórias, vivências, dores, violências, abusos. Muito triste. Mas... Memórias, vivências, afetos, beijos, segurança, abraços, declarações, vulnerabilidades. Muita alegria.
Às vezes eu desejo olhar nos olhos de Deus, que ele me bem guiasse para viver. Que ele fizesse milhões cair na minha conta. Que... ele realizasse minha vida material em plenitude e colocasse minha alma num acalento, fizesse minha alma navegar em uma paz tremenda, terrível. Longe de toda complicação mundana. Mas eu preciso da complicação mundana para viver. Preciso que meu tempo seja recheado de experiências, de algo de isso, esta coisa. Assim que se aprende. É preciso aprender tudo, constantemente, sempre. Não consigo dizer muito, para além de nada. Não posso dizer nada, para além de todo esse silêncio. A homeostase é o silêncio. E não há nada de extraordinário em mim. Não há magia, não há etéreo. Há apenas... isto. Minha vontade, meu desejo. Há apenas um querer que quer se sustentar. Há apenas o ser e o tempo. Há. É.
Escrevo coisas sem sentido que na verdade carregam sentido até demais. Eu sei quem eu quero ser e como quero ser. Sei como quero passar neste tempo suspenso ou como desejo me suspender, a partir de aqui, desses vinte e seis anos, no tempo. Como quero me suspender no tempo? Buscando aquilo que vale mais que o ouro. Cultivando a maior preciosidade que há no meu coração. Purificando meu espírito, me perdoando e aceitando a presença do espírito santo ao meu lado. Aceitando que quem me acompanha não dorme, que quem me protege está sempre torcendo pelo meu progresso, que, longe de eu ser apenas um ser medíocre, não, eu sou um pedaço de Deus e tenho ciência disso.
Eu sei como quero envelhecer, como quero estar vivendo, como desejo esse espaço todo de vida, de amor. Eu sei como quero estar aqui... presente. Como quero me sentir, como quero viver. Eu sei que não vou alcançar a absoluta perfeição, mas que posso flertar, piscar para ela. Sei que nossas mãos podem se tocar, que a gente pode se encarar e ter as pontas dos dedos aproximadas.
Sonhei que um colar estourava na minha mão. Uns dias depois minha pulseira estourou. Tive sonhos com pessoas que mais tarde apareceram para mim. Sei que sou um médium, que há algo em mim que é inexplicável. Eu... Eu sei. Não sei o que sei, mas sei que eu sei de algo. E eu quero ser amado. Quero ser cuidado. Quero ser gostado. Eu quero que me aceitem e eu quero ser profundamente perdoado e compreendido. Também quero deslocar as pessoas, ser luz para outras e demonstrar belezas com a minha pura e simples existência.
Sei como quero viver minha vida. Sei mesmo o que pretendo para este plano. Eu sei. Não é banal e nem quero desperdiçar nem um segundo que seja. Pretendo estar neste tempo, sentindo esse passar, do jeito mais incrível possível. Pretendo viver e ser muito agradecido. Ser um poço de iluminação e alcançar o Nirvana. Sim. Isso é o simples que quero, esta iluminação e elevação da alma. Pretendo, sim, essa coisa bonita que é existir na paz. Quero dissolver todos os medos e saber me firmar. Fechar o corpo e manter a cabeça forte. Pretendo me amar muito, ser quem mais amo no mundo, e amar o outro como se fosse eu. Amar a Deus acima de todas as coisas, respeitar seus mandamentos, não roubar, não causar caos. Honrar meus pais. Quero respirar, não me desesperar. Presença com direção. Onde estou indo? Para onde estou indo? Estou indo para o futuro, construo minha vida no tempo. Estou indo na continuação deste tempo-espaço o qual estou inserido.
Quero trabalhar muito, mas ainda nem entendi como ou com o quê. Quero ter a vida mais perfeita de todas. Uma vida que eu sei que muitas pessoas invejariam. Não quero que sintam inveja de mim. Mas sei que sentiriam ao eu viver uma vida como a que quero viver, uma vida como a que vou viver. Sim. Se posso cocriar minha vida, por que não faço isso? Mas eu faço. Estou fazendo. Sim. Estou fazendo.
Vivo. Respiro. Lembro: estou aqui.
Não importa tanta coisa, apenas viver, respirar, lembrar. Não tenho inimigos. Eu sou meu pior inimigo. Não devo ter medo de nada que não seja o meu Senhor, meu Deus. Sim. Sorria, Terra. Dê um sorriso para o mundo, para todas as pessoas. E quem estranhar, pois sabe, você não tem nada a ver com isso, com o estranhamento do outro. Não deixe de ser, uma vez que sabe que pode ser em paz com tudo. É preciso equilíbrio, amor, sem desespero. Seja forte. Seja tudo. Não, não seja tudo, seja o bom, apenas. Foque na alegria, foque no balanço perfeito entre os opostos. Tenha consciência. Corte tudo o que não preste. Foque na dose ideal das coisas. Saiba, lembre, você está pronto. Pronto para o quê? Para viver. Para usufruir. Eu quero usufruir. Uma vida só é o que eu tenho. Esta vida aqui, até eu não ter, é tudo o que eu tenho. Usufrua, Terra. Sorria, sim. Seja, exista, ame, não tenha medo. Você se criou, você cultivou seu Deus, você fez das cinzas adubo, você está aprendendo a fazer crescer o próprio jardim. Não esqueça, nunca. Quantas coisas grandes e lindas que você fez. Não esqueça, nunca. Não se deixe limitar pelos teus erros, pelos teus pecados. Não se resuma àquilo que você tem de ruim, ainda mais quando se é tanta coisa bonita e legal. Ame. Ame profundamente. Seja gentil. Se reprograme. Reprograme totalmente a sua mente, a sua vida, a sua existência, volte tudo, todos os passos, sem medo, se tiver medo, com medo então, mas vá, faça, coloque-se em movimento, não se permita estar parado, não esteja entre pessoas menores que você, queira o melhor, permita para si o melhor, sério, ame muito e não aceite qualquer coisa. Claro que não. Aceite apenas o melhor. Aproveite o seu tempo. Tudo que você tem de verdade é o tempo. Viva este tempo. Ame neste tempo. Não esqueça. Ou, esqueça, mas depois lembre de novo. Se lembre. Lembre de tudo. Saiba seu tamanho e não tenha medo caso você descubra que é grande. Não tenha medo de ser gigante, de brilhar, de conseguir tudo. Não tenha medo de ser fantástico, de ser bonito, de ter sorte, de encontrar e vivenciar o amor e a vida perfeita.