Estou fazendo alguns pactos comigo. Entendendo outras coisas mais. Decifrando alguns mistérios e entendendo o que é preciso mesmo, com qual mentalidade, frequência e ao lado de quem. Talvez seja o fato de eu ter usado muito ácido e maconha ao longo da minha vida, ou só a minha plena e pura loucura hereditária, mas algo está mudando tanto em mim. Achei que fosse ser a mesma coisa para sempre, mas chegou o meu tempo de mudar. Nunca fui a mesma coisa, só tenho vontade de ser o mesmo, mas não sou o mesmo e nem nunca fui. Mas talvez querer ser o mesmo fale sobre uma coisa que considero muito bonita em mim, talvez eu seja parte de uma linhagem de frutos, não só mais uma árvore aleatória. Uma linhagem de árvores que dão as mesmas frutas tem séculos. Eu não sei dizer se sou gentil. Sinto medo de confiar nas pessoas, mas eu desejo tanto confiar no outro. Nunca vi um da minha espécie em condições plenas de suas próprias existências. Há um horror terrível. Terrível no bom sentido. Horror pois espanta mesmo. O medo é real, mas ele é legítimo? Um dia um anjo vem te visitar e você se curva em posição fetal. Fica parecendo um bebê chorão, inofensivo e frágil na mesma medida. O anjo te olha e você está assim, mas com a pele toda envelhecida, és um bebê velho. Mas o anjo percebe o tempo em você como você percebe numa árvore, sem julgamento, apenas atesta as características e te observa ridículo encolhido pelado no chão, chorando igual um bicho que acabou de apanhar muito, tomar chute, cuspe, foi feito de depósito de raiva e desejo e angústia e curiosidade e impulsos íntimos de seu ser, alheio a tudo e todos, infinitamente infinito, assim é para o anjo, um pedaço inocente e nojento de vida. Algo que dá dó. Não tem vontade de pegar para ajudar, quer só que pare de chorar. Te cutuca com um graveto, você chora, nem percebe que tem um anjo ali. Sua mente é tipo de uma mosca, não diferencia poste da lua, se move pelo mundo através do que a fisioquímica te conversa. Que bicho primitivo.
Os pactos que faço comigo são do tipo... "pare de chorar, olha que bonito, você sabe não só diferenciar, mas explicar a diferença entre a luz da lanterna e a luz da lua! valorize-se. (...) não chore na frente dos anjos."
Meu Nascimento (1932)
Nascida no México em 6 de julho de 1907, Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderó