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devaneios em tempo real #0

     Um corpo se faz antes do mundo, se faz antes da percepção da consciência que o Eu tem a respeito de si e do mundo, sou um escritor e por isso me permito explorar todo modo de existência e descobrir todas as palavras e ir ligando o provável e a possibilidade da minha própria existência, meus limites de ação com os verbos, o ato de escrever, pensar, elaborar, compartilhar, me amostrar, ser... o próprio ato de ser é surreal... e penso que gostaria de escrever uma poesia, mas elaborei uma promessa - não que minha palavra valha alguma coisa - mas penso em... tanta coisa...

    Ser escritor pressupõe a mentira, não é? A enganação. Mas também a verdade. O vulnerável, o verdadeiro, porque se identifica a mentira e é capaz de manipular uma informação, é também capaz de reconhecer o que seria o real. Não?
    O quão forte é meu coração? Nossas almas, espíritos e vidas? O quão real e forte é o que achamos dizemos idealizamos não sei o quê a respeito de amor, do amor, amor, amor puro e simples. Aquele da mãe, do espelho, do irmão, da irmã, do primo, do tio, da vó, do pai, do que deveria ser a família, do que às vezes é e às vezes não é, não sei, esse impacto.

    Há palavras que dizem respeito ao que dizem. Não há como descrever mas meio que sabemos o que aquela palavra na verdade quer dizer. E o tempo da folha, da página, não é o mesmo tempo da vida de quem escreve o texto. O tempo de uma realidade entrecortada não é o tempo do pulmão que mergulha entre os dias... Devaneios, devaneios, até onde podem alcançar as divagações? Onde se faz os limites da ficção, da verdade, da fantasia? Há palavras que dizem respeito ao que dizem, não há como descrever mas meio que sabemos o que aquela palavra quer dizer. E o tempo da folha não é o mesmo que o da vida. O amor é o amor independente das faces, dos modos, das expressões, dos contornos. Quantas palavras são ditas cotidianamente em vão?

    Clarão pelas frestas... É assim que o envelhecimento vai se desdobrando. E a cada luz que entra pela fresta, o calor é de amor. Lamento muito por todas as pessoas que nunca se sentiram amadas. Lamento por todas as pessoas distantes de afeto, distantes de um teto; as maltratadas pelo tempo histórico, que carregam traumas geracionais que ainda não desvendou a cura. Lamento um tanto, mas celebro o dobro, pois sei.

    O que sei? Nada. O conhecimento maior é saber que muitas respostas não importam, mas um tanto de outras importam na mesma medida. O que eu preciso saber me é revelado, como na escrita de um romance.

    Quando comecei meu devaneios ainda não estava na testosterona, hoje já estou. E penso que devaneios são importantes pois é a reciclagem dos resíduos mentais. Um ser que se faz num mundo de palavras precisa falar essas palavras também e mastigar deglutir digerir processar absorver expelir.

    O meu Deus é absoluto. E misericordioso. Justo, benevolente, paciente, sábio, ancestral, sim, pai, mãe, o primeiro, a sem-nome, a energia que permeia tudo, inclusive o próprio universo. Tudo que existe se explica através da Física e da Química, mas mesmo a química e a física que temos não é capaz de encontrar e perceber tudo. Não somos observadores eficientes. Somos limitados pelo corpo e os seus próprios sentidos em limitadas formas que processa. O corpo e o mundo. O corpo é o seu próprio mundo e o próprio mundo que vive o corpo é também um mundo. O corpo reconhece isso, os mundos. Por isso sabe o valor que tem também e o que lhe faz bem e o que lhe faz mal, o quanto aceita o impróprio e o quando é hora de falar até.
    Há limites para o prazer, há limites para a dor. E há o tempo para o prazer, o mesmo para a dor. Eclesiastes fala disso.


    O homem sábio... com quantos anos a maturidade alcança a gente? Os devaneios mudam com o tempo, antes me preocupava com a chuva e dava atenção às angústias. Hoje me preocupo com o mundo. E dou atenção ao necessário para transformar o que me preocupa no mundo, sem abandonar as demandas mundanas. O homem sábio reconhece e vive o equilíbrio entre as preocupações. Quais e quais não, como resolver onde não tem mais o que fazer, o que tem realmente a ver comigo e o que deixe o outro se virar, alguma me prejudica ou minha vida é apenas engrenagem feita para sofrer mesmo, o homem sábio... ele sabe a resposta de todas essas perguntas ou aceita o silêncio da resposta, compreende que no tempo de agora é só preciso viver e viva!, não há nada mais a ser feito além de viver... estes são devaneios da mente... e o homem sábio pensa, pensa, sem considerar que ignorar é também sabedoria por mais absurda que seja a resposta.

    Está para além de qualquer poder humano definir o que é ou não absurdo, considerando que a nossa própria atividade de existência é mero acaso de algo, de um jeito ou de outro. O absurdo. Quantas camadas guarda o copo de vidro cheio de água? E o vazio? Por onde se medem a complexidade dos feitos? E a da matéria organizada em suas propriedades herméticas, repletas de feitiçaria, como se calcula essas variáveis e constantes?
    O morcego, o quero-quero, o saruê e todo mais e qualquer bichinho que me cruza o caminho, como são preciosas suas vidas. A mata, o que um dia foi floresta, então a lembrança do solo, o magma abaixo dos quilômetros de terra água minério petróleo. Toda essa dança que se faz e o homem vai lá e consegue manipular, mexer, mudar, tocar, balançar, fazer como bem entender o que bem quiser com a matéria a transformando em ventilador, microfone, livro, celular, caneta, roupa, droga, comida. O homem tem o poder.

    Talvez a diferença entre o homem e o homem sábio é que o homem sábio reconhece esse poder e escolhe usufruir dele sabiamente o que quer que isso signifique. O que quer que isso signifique não importa, mas o homem sábio sabe o que importa sentir sobre isso. E então fazer. Porque nada serve um homem sábio que não seja corajoso ao verbo.

    Penso na ideia do anticristo, apocalipse, como a média dos cristãos. Debato com Deus essas ideias, leio os evangelhos e busco na palavra de Cristo as respostas, pois é isso, um bom cristão faz da Bíblia oráculo.


    Deus mantém-se fiel mesmo em meio à infidelidade do seu povo.


    O homem só será sábio no dia que a cria de um jumento selvagem nascer homem, tá na Bíblia. Mas não foi Deus quem disse isso. Nem Jesus Cristo. O que Deus disse, nesse mesmo livro (Jó) foi: onde você estava quando o mar se fez? você ao menos sabe o que é a luz? qual a sua relevância para a cabrita que dá leite?
    Quanto mais leio a bíblia menos a vejo como as sagradas escrituras, mas uma história que passa uma grande lição de moral a respeito da verdade universal e harmónica que diz respeito ao agir no dia-a-dia nos conformes dentro da sabedoria. O sol brilha e é ele quem me guia através de cada palavra, através de cada linha e sinto isto como mágica.

    Mágica. Assim se faz o mundo: entre demandas, brilhos e mistérios. Que é tudo isso se não mágica?


    O absoluto pensamento em que tudo se talha, falha e reconstrói. A antítese do absoluto está em seu próprio funcionamento que caí no absurdo, mas, como já pontuei: quem sou eu mero mortal para questionar o absurdo? não passo disto: um corpotrans no mundo.


    

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