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devaneios em tempo real #2 -

     Acabei meu sexto livro de poesia. Esse é o dado. Aos vinte e quatro anos, seis livros de poesia escritos e elaborados.

    Outro dado? Penso em covardia.

    Comecei a escrever tem muito tempo esse devaneios número dois. Já vendi uns 120 exemplares. Estou indo com calma.

    Hoje sofri um divórcio. Estou oficialmente voando com minhas próprias asas. Mas minhas asas estão meio sujas, empoeiradas, frágeis, sem músculo, medrosas.

    O divórcio não foi conjugal, matrimonial, mas materno. Me sinto despatriado, sem família. Na realidade tudo isso é um drama, mas um drama que dói real, porque convive comigo desde muito muito criancinha. Só que agora não sou mais criancinha. Já tenho asas grandes e fortes, ou ao menos deveria ter.

    Talvez eu até tenha, só que ainda tô fraco demais pra conseguir abri-las. Me sinto mesmo fraco. Covarde, mais covarde que fraco. Mundo assustador. Odeio brigas. Não quero caos, não quero problemas, mas é tudo o que me deram. Toda paz em mim, eu que conquistei. Meu terreno não ganhei, essas sementes foram de frutos que colhi.  O que me foi dado foi teto, leite, sustento. Mas sou plantinha exigente demais. Quem não é está maluco. Ponto é: hoje o capitalismo me venceu. Hoje. Hoje eu desisti de um sonho e algo em mim morreu. Hoje eu decidi que quero sair da Filosofia e fazer Administração, construir uma carreira que me permita ganhar pelo menos uns dez mil reais porque não importa o quão bom seja seu coração, não é tão fácil assim bancar um aluguel de 800 dol, quem dirá 1400. Mas sabem, meu sonho uma casa com grande quintal. Uma lavanderia ampla, onde posso comprar um ofurô de borracha.

    Eu não aguento mais chorar. Não me abalo mais como antigamente, mas parecem eternas essas lágrimas, como se nunca fossem novas feitas, mas sempre as antigas recicladas em seu próprio ciclo da água. 

    Acho que o comum é famílias brigarem. Não queria viver no comum. Tenho repulsa 






país imposto.
tantos problemas maiores, não me permito mais sofrer. não sinto mais sentimentos,
tudo que me resta é a idealização e a literatura.
a sociedade é coisa queimada. sinto vontade por fogo. um ano atrás me aconteceu um incêndio.
fingidas fragilidades e simpatias. não gosto de ninguém. eu amo.
estou duro de doido da cabeça. isso que me dói. sou doido de pedrinha, especial, desde cedo, mas não tive o que precisava, não de jeito rápido.
odeio o Homem. odeio o fetichismo do Homem em relação a Mulher. odeio o que fizeram entre nós, humanos. queiro queimar tanto, queimar tudo.
tenho medo da palavra abandono. medo da palavra confiança. parece que sou oco, apenas um trem de eco. uma feminilidade determinada pelo  masculino. me reduziram a isso. reduzem todas nós a isso.

pois como desejo falar sobre ser transsexual, ser um homem trans não-binário Mulher. como poderia negar a Mulheridade que acarretou sobre mim um dia? somos um contexto histórico, político. 

imagine morrer e ser um corpo violentado enquanto morto. imagine isso enquanto vivo.

quanto nos permitem?


    

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