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devaneios em tempo real #3 -

eu tenho medo demais de tudo dar certo. imagina ser famoso, ser conhecido, ser lido, ter pessoas te levando a sério, pessoas te estudando!, imagina ser odiado, comentado, venerado, admirado, idealizado, fantasiado, imagina viver num imaginário e ter palavras que se sustentam no coletivo, ideias que ecoam... não que eu precise de fama para alcançar todas dessas coisas. sei disso também.

quero montar um podcast, ter uma revista, um canal no youtube, ser produtor de conteúdo nas redes sociais, influenciador, um pesquisador, romancista, poeta, produtor de evento e cultura, educador, mas aí você começa a caminhar para ser tudo e acaba não sendo nada, então, valeu a pena? vale a pena? poderia escolher só um de algo? mas nem faz sentido! o que faz sentido mesmo é eu ser terra, eu mesmo, esse Ser, sendo como bem É. fazendo o que faço e fodam-se os adjetivos. estarei lendo, estudando, passeando por espaços, me escondendo, aparecendo, fluindo no espaço, vivenciando o tempo dentro desta matéria.

mas quero transcender. só que não me interessa o conteúdo supérfluo, pequeno, argh, tanta coisa me tira do sério, e eu nem quero ser tirado do sério, não quero que vejam nos meus olhos o meu mau humor, que leiam na minha pupila a raiva transbordando do peito e nem quero que os traumas que fodem a mente, o comportamento, não quero... o que? que eu falo? para onde devaneio? pois irei até o surrealismo, vomitarei as estrelas, o lodo, a vontade por utopias e então cato o arroz mal digerido em meio desse vômito e engulo de volta para o intestino.

me sinto um adulto completo, um adulto angustiado, frustrado. mas tenho tudo. então escuto: nada te falta, mas você tem tudo mesmo?

o que é o tudo? o que será a minha vida daqui trinta anos? estarei vivo? Deus permita que sim. Eu queira assim.

quero me sentir prestigiado. reconhecido. andar com leveza por todos os cantos, com postura, brilho. sabem quem sou, reconhecem minha realeza. me sinto grande, enorme, imparável. mas estou parado. não tenho coragem. óh, que mundo vagabundo que entrou na minha mente e me faz acreditar que mereço ser pequeno!, mas não é esse o meu lugar. pequeno demais, não dá. preciso de espaço, muito espaço. preciso das melhores coisas, das coisas mais belas...

mas coloco todas enquanto deusas, eu não passando de uma mera sombra. quero endeusar a todos, romantizar o tudo, desejando que me deixem para os ratos. por que faço isso comigo? por que me vejo naquela áspera melancolia tão comum a tantos artistas?

ah... flerto com o caos e com tantas, tantas coisas maléficas. sou dócil ao pecado, servo da carne, me seduzo por tudo o que não presta... mas amo de amor profundo tudo o que é vulnerável e honesto. flerto com o ruim, provoco o que não presta, mas honro somente o bom e sigo a genuína vontade por aquilo que me traz paz mais que o gozo do mistério.

eu sou um covarde. um fracote. dramático. mas me conforta saber que não sou o único. muito menos sou o mais, mais. mesmo que eu seja só mais um medíocre entre os medianos, não importa. se é o que sou, importante mesmo só É

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