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Conversa Aberta #6 - Sonhos e Amadurecimento e Mundo Adulto

 Talvez não tenhamos nascido para realizar sonhos. Talvez não haja motivo para termos nascido. Estive pensando hoje em como amadurecer é abrir mão de confortos internos e seguranças pequenas, como é duro cultivar virtudes e responsabilidades, mais duro ainda querer ser moralmente elevado e de puro coração. Estive pensando na ideia de mentiras e traições. Como é fácil ser vilão, ou ao menos como é mais fácil ocupar o papel de alguém indiferente do que ser alguém verdadeiramente esforçado. Será que existe por aí, ainda, alguém para mim? Uma pessoa que tão profundamente me queira a ponto de profundamente desejar me compreender? Na mesma época do ano passado estive passando pelas mesmas situações que passo agora: um término, mudanças bruscas, visita para Minas Gerais, pequenos incêndios por toda parte, renascendo das cinzas. Nessa mesma época no ano passado eu buscava vingança, era mais imaturo, menos adulto, sonhava com mais fervo. Hoje? Diluo os sonhos na água da razão, do dia-a-dia, e me arrependo amargamente por não ter percebido a materialidade do capitalismo antes. Deveria ter feito Economia, penso. Deveria ter casado com aquele cara rico, penso. Deveria ter continuado morando com a minha avó, penso. Deveria ter continuado trabalhando com Comunicação, penso. Deveria ter seguido a Neurociência, penso. Deveria nunca ter desejado nada, muito menos sonhado algo, penso. Talvez, penso, eu deveria só desistir de tudo e que se foda, apenas gravar vídeos no TikTok para registrar meus falidos dias, penso. Minhas reflexões, minhas leituras. Penso. Penso que gosto mesmo é de ficar cinco horas estudando, pausando para um energético, escritos, depois passar mais cinco horas estudando. Penso que quero mesmo ser algum romancista desses que as pessoas são obcecadas pela leitura, pelas personagens. Penso que quero ser um grande, grandíssimo escritor. Penso que me acho medíocre e a mediocridade me faz pensar que não quero realizar sonhos, pois sonhos não são para pessoas como eu: as medíocres.

    Eu não acredito que eu seja mesmo medíocre. Mas cresci ao redor de tanta gente que era que ao demonstrar não ser medíocre automaticamente me puno pela excentricidade.
    Gostaria de escrever que não quero ser medíocre, gostaria de pensar mais sobre sonhos, sobre o amadurecer, sobre o mundo adulto, mas tudo, absolutamente tudo, que me proponho a pensar sinto que é apenas ruminação, nada de novo está saindo. Eu sou um amontoado de carne que recicla pensamentos e se vicia nessa merda. Lamentável. Tudo é lamentável. Mas minha pele ao menos está com os poros fechados. Ao menos eu estou tomando minhas vitaminas, o meu pequeno remedinho e meditando no amor. Não quero mais amar.
    Não quero mais me apaixonar, mas sonho com um romance ainda de filmes. Sinto que envelheço, mesmo ainda sendo jovem, confesso. Mas, como já disse, eu não me via passando dos vinte e três anos, então talvez eu já tenha apodrecido e o que me resta é uma cova. Tudo que faço aqui agora é peso na terra. Mas não sou verme coisa alguma. Tenho tanta gente folgada para encarar. Tantos lacres, tantas belezas para servir. Ainda nem terminei minha transição hormonal, nem tenho o meu corpo dos sonhos, nem criei uma só criança. Não vendi mais de mil livros, não tenho dezenas de obras publicadas, não escrevi tratado algum sobre política e cultura, não fiz um grande artigo, nem publiquei crítica literária alguma, entende? Ainda não dei palestras, não ganhei dinheiro de verdade com a literatura, nem alcancei nenhum dos meus grandes e bonitos sonhos.
    Amadurecer me ajuda a entender que não preciso alcançar nenhum dos meus sonhos para ser feliz, o mundo adulto faz muito acreditar, nesse sistema, que sonhos não valem a pena. Mas eu não acredito é nesse sistema falho. E eu ainda não falei o suficiente sobre as falhas da nossa sociedade com o mundo. Quantas pessoas ainda precisam conhecer Terra Pessoa? Quantas pessoas precisam ter uma trocação de ideia sincera comigo? Quantas mentes e corações ainda serei capaz de impactar? Preciso talhar meu próprio legado, bater meu lote interno e externo, escrever as vivências muitas que tive ao longo desses quase vinte seis anos de vida. Ainda nem escolhi um partido para me filiar, não me candidatei a nenhum cargo político, não fiz porra nenhuma da minha vida além de cruzar com alguns espíritos por aí... Há tanto, tanto que desejo fazer. Tanto que, materialmente, desejo. Um terreno, uma casa própria, animais para cuidar, uma pessoa que seja a mesma sintonia, que compartilhe comigo a mesma sinergia e que, apesar de todas as diferenças, escolha sempre estar.

    Entre as pessoas ao meu redor, sinto que tenho a mais triste das histórias, mas nego algum papel de vítima por conta de minha consciência. Acho que as histórias tristes em mim foram feitas para virarem estórias, não dados biográficos. Quanto mais distante fico dos eventos traumáticos, mais eles parecem menores também. O mundo adulto me faz pensar que traumas são coisas pequenas, feitas puramente para serem superadas.
    Não sinto uma dor tremenda. Quis sair de casa. Desde criança quero fugir. Desaprendi o significado das palavras, permiti muito que me tirasse pra merda e me vi desnutrido de confiança. Boio num leito de incertezas agora, e construo minha vida assim: no incerto. No incerto e improviso e estresse foi se moldando meus dias, então me eduquei no meio daquilo que não é seguro. Meu sonho hoje é a segurança. O amadurecimento me orienta a isso: segurança. Deus me dá segurança, mas eu sei também que não é só Deus que faz nossas vidas, mas nossas próprias ações. Livre arbítrio, não é.

   Minha vontade agora é nunca mais saber de casamento. Nunca mais saber de nada que envolva construir uma família. Mas esse é um desejo meu tão grande quanto encher um auditório de 800 lugares.
    Minha vontade é ser solitário, focar primeiro em mim, me colocar em primeiro lugar e me amar tão profundamente que a qualidade do meu amor ao próximo exponencialmente também cresce.
    Meu sonho ao longo do amadurecimento no mundo adulto é sair dessa alegre, morrendo aos meus oitenta e poucos anos com saúde, leveza e muita realização de vida contemplada. Mas tá foda. Ainda bem que eu sei que é passageiro o foda. Passageiro. Perceber e aceitar isso é um amadurecimento. A realização de um sonho também. Eu acho.

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