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Conversa Aberta #11 - Envelhecer

Há algo terrível em envelhecer. Uma morte, uma luz. Vejo meu corpo no espelho, a pele, o cabelo, estou em busca dos maus sinais. Penso nos meus hábitos terríveis e no quanto tive uma juventude imersa em hedonismos e loucura, além de uma busca insana por respostas que, agora que tenho, me sinto vazio.

Dos dezoito até meus vinte e quatro tudo foi meio igual (por dentro). Repentinamente, estou com quase vinte e seis e parece que entendi tudo. Do nada, já não há mais espaço para inocências e tudo o que você precisa fazer é agir, mas não sabe executar. É uma máquina de contemplação e a velhice te aponta isso: está envelhecendo e se silenciando. Mas não quero ficar calado, ou viver como seu eu nunca tivesse conhecido a plena alegria e um aconchegante amor. Não sou só alguém cheio de dores e traumas. Ninguém é. E não é preciso ser melancólico para ter legitimada a cicatriz. Nem precisa perder a fé, só porque outras pessoas são vazias.

Virou mantra diário: não esquecer. Não esquecer o quê? Eu sei exatamente sobre o que falo. Falo sobre o amor de Deus, a promessa do arco-íris, a possibilidade da purificação do coração e do espírito, os poderes de sua Graça, as lições de Jesus Cristo. Não esquecer também de que erro, que sou humano e uma fisiologia nos rege. Mas que uma consciência, que envelhecer, também está em contato com essa fisiologia, pode a alterar, ou ao menos, observar ela tão atentamente que descobre como liga ou desliga, que descobre como regula.

Agora que envelheço, sinto medo de estar velho, mesmo amando sentir e experenciar a passagem do tempo. Percebo que o verdadeiro medo é do fracasso, da decepção, de não dar conta ou precisar abrir mão de coisa demais.

Penso na fábula do artista que entrega sua alma em prol do sussurro maior das Musas de Apolo. Penso em como a espiritualidade é sagaz. Já fui pagão. Hoje, respeito, mas, hoje, minha fé me fecha em Deus. Deus enquanto este ser de atributo infinito, um mistério irresolvível. O porquê do ouro brilhar como brilha ou de cogumelos poderem dar alucinações.

Fato é que achei que estando mais velho eu teria todas as respostas já. Que aos vinte e seis anos eu já estaria com a minha vida toda já provada, sendo que tudo o que construí até agora são pequenas estruturas. Estou andando, tive conquistas, mas parece que o ganho intelectual é vazio, que desperdiço minha existência e melhor seria ir atrás de cinco ou dez mil reais por mês e viajar, comprar e viver numa casa decorada com itens que amo. Seria muito feliz numa vida artificializada desse jeito, desde que eu não tivesse consciência de algo mais além disso.

Este foi o além para Pandora, o conhecimento do baú. A maça de Eva. A curiosidade matou o gato, afinal. Será que as coisas podem dar certo? Envelheço, mas fico pensando... Caramba, ainda sou tão frágil. Quando que vou estar forte e inabalável? De onde vai vir a força para eu levantar e fazer tudo acontecer? Como se livrar da terrível consciência do tempo passando e então me paralisando ali, no cruzamento.

Com o envelhecimento está mais fácil de lidar com tabus e passar por enfrentamentos. Também compreender mais a materialidade prática das coisas e a importância da disciplina e responsabilidade. Que sonhos grandes podem sim se realizar. Que erro pois sou humano e isso faz parte da nossa natureza. A verdade inegável que envelhecer me mostrou. Ser humano é estar preso numa forma onde o erro é inevitável. E o erro não é o pecado. É o erro. Coisa que envelhecer também te mostra e ajuda a diferenciar.

Fico pensando em sumir do mundo, mas sumir para onde? Queria ver as estrelas. Fico pensando se algum dia vou andar de avião de novo e se minha casa vai ter uma banheira e uma poltrona. Gostaria de envelhecer mais em silêncio e que virasse uma chave como: deu. Mas parece que sou isso, assim mesmo. É interessante se conhecer e perceber que não é perfeito. Que posso estar com cisticercose por todo o corpo neste momento, que uma varejeira pode encontrar minha nuca ferida e pousar um ovo ali e então de mim estourar uma larva e uma mosca; me assusta e me maravilha. Talvez seja isso o assombramento. Fico de cara pensando no orgânico em nós. Que sou como uma árvore, um corpo fácil de ser parasitado. Que da boca de pessoas saem vermes, que podem andar debaixo de nossa pele, sair pelas nossas fezes e até agregar no nosso cérebro. Formigas andam pelos nossos pêlos, piolhos e mosquitos tomam do nosso sangue, podemos inspirar micro-organismos que podem nos matar, mas temos a medicina e a própria inteligência biológica do nosso corpo para garantir que a gente fique bem.

Envelhecer não me trouxe mais segurança pela vida.

Eu sei que somos um corpo em um desastre iminente. Que talvez não haja futuro genuíno para mui de nós. Uma lástima. Fico pensando em tudo que poderíamos ter sido, mas lembro que ainda vivo. Que se vivo pensando assim, melhor é eu me entregar para o sistema e desistir de uma revolução ou de qualquer mudança maior. Eu queria tanto que a gente pudesse dar as mãos. Envelhecer é perceber que despedidas são reais e está tudo bem o fim. A vida é curta demais, mas ainda cabe muito dentro dela. Fico pensando em tantas coisas pequenas e grandes. Quero envelhecer assim? Já estou envelhecendo e sinto que me caibo pouco. Que o caminho que escolho seguir é um caminho para desgraçados, mas que se eu não for por ali, não resta nada que me importe de verdade.

Envelhecer me mostrou certa integridade no meu Eu, para o bom e para o ruim. Foi perceber que às vezes uma ou outra série favorita basta. Que sempre vou adorar Kapo de Morango, mas que não é isso o que eu deva comer todo dia, mas que açaí pode fazer parte do meu mês. Envelhecer para mim é notar que eu sou dono dos meus caminhos, invariavelmente. Faz parte das nossas qualidades.

Envelhecer vem me mostrado muitas maravilhas e, apesar de tudo, é um potencial de contemplação viver no tempo. Envelheço, mas não apodreço. Pelo contrário, estou blooming. Na iminência da flor se abrir. Mas não sou uma flor, mas uma pessoa. Um sistema vivo, dos mais mágicos. Envelhecer me deu a certeza da passagem do tempo. Percebo como envelheço. Que vou envelhecer. Mais.

Há quem diga que nossa única certeza é a morte. Pois a velhice também é certeza. Não vivo pensando que vou morrer, isso é assustador para caralho. Pelo contrário, eu vivo sabendo que amanhã eu acordo. Por enquanto é assim. Um dia isso pode mudar, mas, por enquanto, essa é minha fé.

Prefiro essa certeza do que a certeza de algum amor.

Mas que eu quero meu amor... isso é. Mas não tenho pressa. Ainda tenho a minha própria vida para estar vivendo e construindo. Tudo muito fresco. Mas ansioso para ver essa tinta secar. Por mais tedioso que seja às vezes, envelhecer vem me mostrado que a vida é sobre as companhias que a gente cultiva por aí. O que há de mais precioso quando aqui em Terra são os laços. Envelhecer me faz valorizar com sabedoria isso. Isso e os estudos.

Que Deus nos abençoe. 




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