Tornou-se morte nosso amor.
Por que escolheu sozinho
o que nos diz respeito?
Se algum dia pensei em te esperar,
agora tudo é areia entre os dedos.
Você escolheu minha solidão por mim.
Foi viver teu sonho porque sim.
Se entregou para uma paixão de um mês
Mas não te julgo
Faria igual
Se estivesse solteiro
Ou se fosse eu o próprio mal!
Se orgulhe da escolha que fez
Da relação que assassinou
Encare o fundo dos olhos
do amor que entregou
ao acaso, ao caixão
Encare e sustente na mão
o peso de ter roído
por completo o coração
que percorreu o mundo por ti
Sonhando sozinho
o que acreditou sonhar contigo
Mas, não
Tornou-se morte a paixão
Então, vá!
Vá viver seu amor com Maria,
se descobrir.
Construa outras casas e me esqueça aqui
escrevendo para você um livro
das memórias que restou
e sobre o café na pia que ainda não esfriou.
Ensaio #5 — O direito de existir na diferença: uma leitura de “Sintomas mentais e a ordem pública”, de Erving Goffman, em diálogo com “O metafísico no homem”, de Merleau-Ponty
introdução A leitura de Sintomas mentais e a ordem pública , de Erving Goffman, desloca algo que, no cotidiano, costumamos tomar como um dado factual: nossa sociedade é isso e não há como mudar. No entanto, aquilo que geralmente aparece como organização natural da vida social revela-se, pouco a pouco, como uma construção sustentada por normas, expectativas e convenções frágeis. A ordem deixa de ser um dado e passa a ser um arranjo delicado, sempre à beira do conflito. Quando esse texto é colocado em diálogo com O metafísico no homem , de Merleau-Ponty, o deslocamento se aprofunda. Se, em Goffman, a ordem é um produto social, em Merleau-Ponty a experiência humana aparece como algo anterior a qualquer sistema de normas. O existir vem antes da regra. A percepção vem antes da classificação. O corpo vivido vem antes do diagnóstico. Logo nas primeiras linhas, Goffman afirma que aquilo que os psiquiatras reconhecem como doença mental é, quase sempre, visto antes pelo público como co...