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Ensaio #5 — O direito de existir na diferença: uma leitura de “Sintomas mentais e a ordem pública”, de Erving Goffman, em diálogo com “O metafísico no homem”, de Merleau-Ponty

  introdução A leitura de Sintomas mentais e a ordem pública , de Erving Goffman, desloca algo que, no cotidiano, costumamos tomar como um dado factual: nossa sociedade é isso e não há como mudar. No entanto, aquilo que geralmente aparece como organização natural da vida social revela-se, pouco a pouco, como uma construção sustentada por normas, expectativas e convenções frágeis. A ordem deixa de ser um dado e passa a ser um arranjo delicado, sempre à beira do conflito. Quando esse texto é colocado em diálogo com O metafísico no homem , de Merleau-Ponty, o deslocamento se aprofunda. Se, em Goffman, a ordem é um produto social, em Merleau-Ponty a experiência humana aparece como algo anterior a qualquer sistema de normas. O existir vem antes da regra. A percepção vem antes da classificação. O corpo vivido vem antes do diagnóstico. Logo nas primeiras linhas, Goffman afirma que aquilo que os psiquiatras reconhecem como doença mental é, quase sempre, visto antes pelo público como co...

Conversa Aberta #8 - Observador

 Eu reparei, ontem, no homem empurrando um carrinho de bebê sem o bebê. Também reparei no cobrador do último ônibus do dia tirando os óculos e, com o dorso das mãos, coçando ambos os olhos. As quatro meninas conversando no canto do ponto; mais ao fundo, alguém que parece cauteloso e opta por manter-se escondido na escuridão; as duas pessoas que estão de mãos dadas, mesmo sem a intimidade de um casal; adolescentes gritando, brigando, brincando, interagindo, passando pelos seus dias pelas ruas, em grupo.  No poste, bem no topo circular de seu concreto, um passarinho me observa. Noutros cantos, vejo outros pássaros em árvores, balançando galhos, fazendo com que rodopiem pequenas folhas da copa até o chão. Há partes azuis e cinzas no céu, cujo horizonte reflete amarelado, como a parte muito mole de uma goiaba que estragou.  Fofocas chegam ao pé do ouvido, trazidas pela atenção. Fico em silêncio e escuto meu ao redor. Abro os ouvidos tanto quanto os olhos. Reparo no quão difer...

Ensaio #4 - Matisse, Todorov e O que é Arte?

    Introdução      Matisse sonhava com uma arte sem sentimentos conturbados, que não carregasse conflito problemático, mas fosse puramente equilibrada, tranquila, sem temas de inquietação.         Por mais que eu particularmente goste do ato de conhecer coisas sem saber muito sobre o autor, há questões específicas que chamam a mim atenção, por exemplo: o ano em que coisas são feitas, ditas, expressas, nascidas e mortas.      Matisse nasceu em 1869 e foi morrer no ano de 1954, viu muita coisa, apreendeu e teve tempo de pensar muita coisa, isso enquanto artista, alguém que gosta de fazer coisas bonitas .        Enquanto filósofo  — quem diria que me chamaria assim algum dia  —  seria de bom tom definir o que quero dizer por bonit- , mas não preciso. Aqui eu quero que pegue o que conhece de senso comum, do que já ouviu falar, é sobre isso aí que falo. Se um dia já ouviu essa palavra, quero ...

Conversa Aberta #7 - komorebi

Passei a manhã e tarde estudando Matisse, Todorov e pensando em Arte. Senti vontade por sumir por seis meses. Voltar só depois de ter tudo feito. O que mais quero no mundo é dinheiro. Dinheiro para, supostamente, realizar todos os meus sonhos, como se fosse o dinheiro, não eu, quem vai fazer as coisas acontecerem. Nem acho que tenho mais sonhos. Minto. Tenho muitos. Faz tempo que não vejo por trás de cortinas, ou ando nas pontas dos pés, ou sorrio para estranhos num manifesto simples de existência. Deus está aqui? Às vezes é melhor viver como ateu, apesar de toda fé. Antes não voltaria no tempo, hoje, sinto vontade imensa de ser jovem de novo e buscar ainda mais inteligência e sabedoria, aplicando o que sei hoje lá atrás. Fico agindo como se não fosse todo dia uma nova oportunidade. Não é todo dia uma nova oportunidade? Lembro de mapas dos sonhos que fiz, as noites de bruxaria, feitiçaria, me fazia bem toda aquela nutrição. Hoje? sobra pra mim nada. Desisti do mundo e agora só uno forç...

#devaneios - corre atrás mané

 há Olinda se transformando bem na minha frente, gritando para se tornar uma menina que perambula pelas ruas de Ouro Preto, Vila Rica, na verdade. me diz que vive num passado distante, mas que não é real, é mágico. então, quer que o pescador pesque essas histórias, esses contos, compartilhe com o contador e é assim que o contador sabe de tudo. vivo um dilema. ao mesmo tempo que gostaria de hiperjustificar os meus romances, tem algo que sinto que se eu passar de mais vira pecado, algo que já não brilha mais como antes. dá para polir, mas aí é mais trabalho ainda e sinto que o contemporâneo são tempos preguiçosos. nos querem dormentes, querem que a gente tenha nossos vícios. preferem nos dar tudo no meia boca, nos amortecer. não existe papo de empreendedorismo, influenciador no mundo ideal, utópico. as pessoas são pessoas no bom estado, que não pode mais ser chamado de estado, nem nação, mas uma terceira coisa que não contempla o idioma português. este idioma que não contempla nem me...

Ensaio #3 - Boas escolas, bons museus: a educação e a formação de eus

  “A educação como prática de liberdade é um jeito de ensinar que qualquer um pode aprender”, assim começa o capítulo 1 do livro Ensinando a Transgredir , de bell hooks. Pensar a educação é pensar os modos como a sociedade constrói e partilha seus saberes. O mesmo vale ao se pensar a museologia, suas memórias e narrativas sobre o mundo. Tanto o espaço da escola quanto o do museu são territórios de formação: moldam olhares, valores e sensibilidades. Isso mostra que são, ao mesmo tempo, espaços de poder e de possibilidade. Falar de boas escolas e bons museus é falar de instituições que não apenas buscam contar e sustentar Histórias, mas que verdadeiramente transmitem os códigos do mundo e oferecem aos indivíduos em formação, geralmente crianças e adolescentes, ferramentas e caminhos para que possam pensar e sentir criticamente o mundo, com a sensibilidade viva de pequenos humanos, seres com alma e espírito, como tanto defendeu Paulo Freire ao falar de humanidade. Em Ensinando a Trans...