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Crônicas #1 - Rafael

 para Rafael


Conheci Rafael na frente de um bar. Veio se aproximando, me querendo vender bala de eucalipto. Perguntei se tinha PIX e ele disse que não. Que precisa tirar isso porque muita gente tá perguntando, mas ainda não sabe
— O que quê é?

E eu respondo, falo que precisa ter uma conta no banco. Pergunto, talvez de modo ignorante, se ele tem RG, ele diz que sim, que lógico! e me sinto constrangido porque sei que é tão brasileiro quanto eu.

Pergunto em quem ele votou agora nas eleições pra prefeito, diz que não votou porque não tem endereço, mas também que não votaria em ninguém, ninguém olha pra ele. Rafael começou a me dizer que às vezes precisa fazer as necessidades no saquinho e que é chato crianças e suas famílias o verem na situação que está. Nenhum governo está preocupado em saber se Rafael tem um banheiro para usar, isso o deixa revoltado, não confia em ninguém.

A lua brilha acima da cabeça, diz para mim que o nome da lua é Rosi, Rosimari, sua mãe que morreu a um tempo. Me diz que levou onze facadas de uma ex têm três anos, então voltou a contar a história da mãe e perguntou qual é mesmo o meu nome. Respondi:

— Terra

E Rafael se maravilhou. Se espantou. Perguntou:

— Mas é nome mesmo?

Eu respondi:

— Da certidão de nascimento, RG, tudo

E ele perguntou:

— Não é apelido?

Respondi mais uma vez:

— Meu nome

Achei bonito demais ver Rafael falando da mãe, da lua. Perguntei se tinha fé e disse que a lua, sua mãe, era sua fé. Disse que tinha um filho, o Gustavo, disse que o amava muito. Que o ama muito. Que se mantém vivo por conta dele. Que sente saudade da mãe, sua lua. Me confessou segredos e perguntei:

— Posso anotar e escrever sobre os seus segredos? Sou escritor sabe, sempre bom tomar nota do mundo e sua história é tão bonita. Não sou importante e nem sou ninguém especial, mas gostaria que mais gente te conhecesse

Ele concordou, disse para eu anotar o nome de todo mundo certinho, pra registrar, sim, que Deus me enviou porque ele precisava muito desabafar, falar, ser escutado. Ele está deprimido. Ele está triste. Rafael se despediu de mim dizendo:

— Obrigado. De verdade, obrigado. Não por essa fanta uva, mas pela conversa. Pela escuta. Obrigado e eu espero te ver de novo em algum outro plano, talvez quando Jesus voltar? Espero que mesmo que não for agora, se essa história for verdade, espero que a gente possa se reencontrar.

E eu apertei sua mão. Pus um selo neste acordo. E na minha cabeça eu só pensava:

mas eu não fiz nada demais

O que reforçou ainda mais a minha fé no quanto não sabemos de nada a respeito do outro até viver o inevitável encontro.


Não acho que seja impossível eu encontrar Rafael de novo. Gostaria muito de encontrar com ele num café, a gente conversando sobre revolução socialista, decolonialismo, quais autores devem ser cancelados, qual o último babado entre os famosos, será que a Virgínia nunca mais vai ter um filho?, saber sua opinião a respeito do filme substância, ouvir falar sobre a inutilidade ou representatividade dos pronomes; gostaria de encontrar Rafael e ele falar, nossa, você não sabe, o governo começou a fazer coisas e agora eu tô conseguindo me virar! Tá sendo ótimo! Existem grandes sistemas de saúde de qualidade, eu tenho um endereço, mesa sempre farta e até os dentes todos da boca agora eu tô, olha aqui!

E então iria abrir um sorriso e me falaria da mãe, da lua, suas conversas. Talvez me confessaria outros segredos, talvez só deixaria morrer todo o passado e viveria o presente, aproveitando cada oportunidade e reconhecendo que talvez o reino de Deus possa mesmo ser aqui. Não precisa morrer pra viver Deus.


Rafael, assim como tantos outros encontros, me proporcionou o extremo deleite frente à pergunta: que porra de errado estão fazendo com o mundo e como a gente atravessa essa merda? É desgostoso pensar sobre isso. Horrível. Mas é necessário. E no final, verdade seja dita, somos apenas todas pessoas querendo ouvir samba ou cantar Rafael Moreira, quem sabe Tati Quebra Barraco ou julgar os gostos musicais uns dos outros.

No final mesmo, só chegar em casa, ter uma roupa quentinha pra vestir, uma cama limpa, comida na cozinha e uma tela pra ver netflix.


Penso qual seria o melhor jeito para acabar uma crônica tão honrosa:


Toda honra e glória para você, Rafael. Que você possa ler isso um dia, seja porque eu te mostre, seja porque isto te encontre. Deus abençoe, axé, amém. Dedico à sua lua também. Sua Deus, toda honra e glória.



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