Pular para o conteúdo principal

Expressão em Movimento #1 - SLAM: uma arte do espírito

 Apresentação - O que é SLAM

    Devo começar o texto formalmente apresentando o que é o SLAM segundo uma pesquisa rápida num mecanismo de busca:



Os sites de referência que aparecem são estes primeiros para mim

  1. SLAM: a poesia de resistência nas escolas – Central Periférica

  2. Revista Educação Pública - Slam: literatura e resistência!


Não vou usar o espaço Expressão em Movimento para dissertar de um ponto de vista objetivo o que são as expressões em movimento em que me vejo movimentando seja como artista ou público. Estou aqui para falar de um Ponto de Terra. Mas incentivo: conheçam e leiam os artigos acima para entrar em contato com a informação "oficial" e objetiva a respeito do SLAM


Minha história pessoal e impressões


Conheci o SLAM aos vinte e três, no meu ano de calouro em Letras na Universidade de São Paulo. Estavam divulgando na cafeteria próxima do prédio que eu estudo, a Tia Bia, sobre o evento de poesia que ia acontecer no Espaço Verde, uma das áreas de convivência dentro da faculdade. Escutei a palavra poesia e logo me interessei, fui ver o que era mesmo ainda sem entender. Então ouvi. Fui jurado. Por mero fruto do acaso ou porque me voluntariei. Não lembro.

O que lembro é que neste dia conheci Naiá Curumim e Poeta Cj. Segui nas redes sociais ês artistas e fui acompanhando o trabalho, o que postavam. Demorou alguns meses para eu ir em outro SLAM. O próximo foi dentro da USP também, na frente do bandejão central e da moradia estudantil de lá. No final desse segundo SLAM, o Poeta Cj disse que ia ter dali alguns dias um SLAM em Osasco, e estava convocando quem quisesse ir.

Aconteceu numa quarta-feira, convidei um colega da graduação e foi legal. Eu percebi que gostava muito mesmo de SLAM. Percebi que também queria ver se eu conseguia entregar algo, queria descobrir se dentro de mim existia aquela magia e espírito.


O SLAM é um dos produtos mais bonitos da Poesia. Pega a rima, a métrica, mas também a interpretação, o corpo falando, a voz calibrando timbres e entonações. É um trabalho teatral. São contações e interpretações de histórias. É mágica. Seja a poesia de amor, seja a poesia política, seja o freestyle. Não importa. É mágica, uma arte do espírito.


Entre os dias 6 e 10 de novembro do ano de 2024, ocorreu o campeonato estadual desta arte que é o SLAM. Há campeonatos de ginástica, o prêmio jabuti, copas do mundo e SLAM mundial. Antes do mundial, há o nacional e antes do nacional há o estadual. O que eu fui durante esses dias foi o estadual daqui de São Paulo. Pessoas de todo canto do estado vêm para a capital competir ou assistir. O evento ocorreu no Sesc 24 de Maio, ao lado do metrô República. Foi um momento espirituoso. Todos os dias chorei um pouco, de pura emoção. Não só tristeza ou revolta, mas emoção. Emoção pura e simples, daquele tipo que te faz ter vontade de levantar e aplaudir por horas ao fim de um espetáculo.

O SLAM é uma arte da cena underground, mesmo que tenha campeonato mundial. Ainda não tem toda a visibilidade que merece. O campeonato estadual aconteceu num andar do Sesc 24 de Maio, mas pela qualidade poderia lotar um estádio inteiro com gente vibrando pelos artistas ali. Quem sabe um dia?


Fiz minha primeira apresentação de SLAM umas semanas antes de saber sobre a existência do campeonato estadual. Foram várias felizes coincidências se desdobrando num espaço curto de tempo. Todas coincidências que me aproximavam dessa arte e de seus artistas. Fiz minha segunda apresentação, mas a minha primeira oficialmente enquanto terrapessoa, umas semanas depois do Estadual. Foi intenso. Me sinto intenso quando declamo, e a liberdade que o SLAM permite no palco é impressionante. Coisa de espírito mesmo. As pessoas se entregam, mergulham em suas arte, transbordam e se expressam entregando toda verdade que mora no peito, no coração. Ao menos são assim as melhores apresentações que vi.

Até o momento, me vejo como público, mesmo que eu vá competindo vez ou outra por aí. Gosto muito de escutar. Acho importante escutar. É bonito demais. Toda a coletividade manifesta ali, é emocionante, como já disse.

E é um modo de arte coletivo. Não se faz SLAM sem o coletivo. Tenho muito ainda para aprender e viver dentro da cena do SLAM. Espero que mais pessoas possam conhecer e se encantar, como eu me encantei. Que possam participar e se aproximar.


Artistas para conhecer


Para finalizar e te aproximar da arte do SLAM, nada mais válido que deixar a recomendação de alguns artistas que movimentam a cena e tive o imenso prazer de ouvir recitar, seja no Estadual do SLAM SP, seja ao longo da vida nesse meu contato de pouco mais de um ano:


    Existem dezenas de outres poetas que eu gostaria de compartilhar, mas para não prolongar demais a lista, selecionei 17 que gosto e acompanho o trabalho.

    Mas, e aí, você já conhecia o SLAM?
    Já conhece alguns desses poetas? 


Postagens mais visitadas deste blog

Ensaio #5 — O direito de existir na diferença: uma leitura de “Sintomas mentais e a ordem pública”, de Erving Goffman, em diálogo com “O metafísico no homem”, de Merleau-Ponty

  introdução A leitura de Sintomas mentais e a ordem pública , de Erving Goffman, desloca algo que, no cotidiano, costumamos tomar como um dado factual: nossa sociedade é isso e não há como mudar. No entanto, aquilo que geralmente aparece como organização natural da vida social revela-se, pouco a pouco, como uma construção sustentada por normas, expectativas e convenções frágeis. A ordem deixa de ser um dado e passa a ser um arranjo delicado, sempre à beira do conflito. Quando esse texto é colocado em diálogo com O metafísico no homem , de Merleau-Ponty, o deslocamento se aprofunda. Se, em Goffman, a ordem é um produto social, em Merleau-Ponty a experiência humana aparece como algo anterior a qualquer sistema de normas. O existir vem antes da regra. A percepção vem antes da classificação. O corpo vivido vem antes do diagnóstico. Logo nas primeiras linhas, Goffman afirma que aquilo que os psiquiatras reconhecem como doença mental é, quase sempre, visto antes pelo público como co...

Poema #2 - Quando Me Vi Universalizado

Quando me vi universalizado não foi quando encarei o espelho, não foi quando vi de um peito o chute de um coração. Não me vi universalizado no livro escrito um bom conselho que dizia-me: a alma é leito do amor à tentação. Quisera eu mimosas colchas para meu espírito meditar sobre do que é feita alma e qual a cor de acreditar num Deus que cria conchas, do barro faz Gente respirar até desacreditarem na alma e da Força que a fez brotar. Quando me vi universalizado chamei de vadia minha prima, cortei minha barriga com as unhas, desejei ser como a seiva entre a pressão dos meus dedos. Me vi universalizado no ato de humildade ao assumir os meus erros. Lembrei-me da rima: bela e singela. Dos meus pecados fui testemunha, quando me universalizei não fui Deus, só esta coisa que se supunha.

Ensaio #4 - Matisse, Todorov e O que é Arte?

    Introdução      Matisse sonhava com uma arte sem sentimentos conturbados, que não carregasse conflito problemático, mas fosse puramente equilibrada, tranquila, sem temas de inquietação.         Por mais que eu particularmente goste do ato de conhecer coisas sem saber muito sobre o autor, há questões específicas que chamam a mim atenção, por exemplo: o ano em que coisas são feitas, ditas, expressas, nascidas e mortas.      Matisse nasceu em 1869 e foi morrer no ano de 1954, viu muita coisa, apreendeu e teve tempo de pensar muita coisa, isso enquanto artista, alguém que gosta de fazer coisas bonitas .        Enquanto filósofo  — quem diria que me chamaria assim algum dia  —  seria de bom tom definir o que quero dizer por bonit- , mas não preciso. Aqui eu quero que pegue o que conhece de senso comum, do que já ouviu falar, é sobre isso aí que falo. Se um dia já ouviu essa palavra, quero ...