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Poema #1 - Uma falsa epopeia contemporânea

Convoco as Musas para falar sobre como roubaram de nós a possibilidade de falar de arte, de ser artista.

Roubaram de nós a possibilidade

de alimentar a necessidade

por sol e alimento sem veneno

que nosso corpo pequeno

sente.


Não querem que saibam

que o albatroz se engasga

e mata seu próprio filhote

dando de comer tampinha de garrafa

que vem junto à sua caça.


Não querem que a gente pense

em aquecimento global,

em calota degelando,

em pinguim mil km nadando

para encontrar um local

para botar o seu ovo

e viver o seu normal.


Não querem que a gente se importe

com nosso lixo, com a falta de sorte,

com as crianças em escolas precárias,

com o sangue derramado e as promessas de morte.


Querem nos distrair de toda história humana,

que não dá mais para ser contada em uma só poesia,

é preciso reescrever uma obra grande como a Ilíada

para ser capaz de propagar

toda sujeira que vem ocorrendo

nos últimos milênios

em que nossa história humana

esteve a perdurar.


Roubaram de nós a possibilidade de ser artista,

de viver da planta, do sol,

de se hidratar e bem cuidar

do planeta que tanto amo,

da terra que tanto me abrigou,

do terreno que meus ancestrais

por aqui um dia caminhou.


Arrancaram de nós 

a possibilidade de ser artista,

é preciso junto fazer política

e tentar de algum modo

alcançar quem ainda não entendeu

que pra mudança vir é necessário

não só saber das desgraças,

mas levantar da sala

e ouvir cada irmão

na luta, na rua,

nas praças, na sua

casa chorando por não ter pão.

Arrancaram de nós o ócio,

proibiram o descanso,

comercializam

os presentes que a natureza nos deu.

Me resta agora escrever um longo livro

sobre toda essa palhaçada

e esperar que minha palavra ecoando

no mundo alguma diferença faça.


Arrancaram de nós a possibilidade

de pensar na prospecção da arte,

de pensar em métrica e beleza,

de contemplar a pura existência.

Nos arrancaram a inocência.


Nos distanciaram de Deus

a ponto da gente questionar

se a existência de algo maior que Eu

é possível de se realizar,

sendo óbvio que é,

pois ser humano não é porra nenhuma,

porra alguma é a natureza

e o ciclo de cada verdura

que amadurece para alimentar

cada animal nessa terra

adoecida que não temos tempo de cuidar.


Arrancaram de nós a arte,

nos transformaram em homem moderno

onde sujeira nos permeia.
Somos esquizofrênicos, birutas.

E a loucura em mim machuca.

Em mim machuca a loucura,

em mim machuca a dor,

em mim machuca a dúvida

de se é errado falar de amor

quando tudo que quero é amor,

o que quero é ser amor,

mas como amar meu inimigo

que destrói e rouba tudo de mim

sem respeitar o que necessito,

desprezando o sonho que aspiro,

me causando dores no rim?

Como amar o injusto

e as imagens de destruição que vi?

O que faço com tanta desgraça?

Desejamos morrer, mas não podemos assim.


Não cabe tudo numa só poesia,

escreverei um livro então

onde as cento e mil linhas

vão contar a história desse mundão.

Vão anunciar a vinda de um milagre,

contar uma outra possibilidade

que vai trazer ao mundo

a esperança da real verdade

a respeito da história do imundo

que tentou destruir famílias,

esquecendo que em Deus

todo injusto desmorona.

Não vou nem escrever poesia,

só vou organizar palavras

onde cada maldita linha

é a elaboração de um disco,

um disco que nunca arranha,

pois, deveras, nunca existiu.

Será apenas mais uma obra

da dor de alguém que faliu.

De alguém que faliu

em desistir,

alguém que fracassou

em tentar se matar,

contarei a história de alguém

que falhou em servir

a sociedade que tenta matar

de cansaço, de ódio, mentira

a respeito do bom capitalismo

que nos suga tudo sem fatigar,

que nos consome toda pureza

e a perspectiva de um bom lugar pra morar.


Esta é a história

da sociedade contemporânea,

fruto de um corpo

com uma história de mais de mil anos.

Aqui não existem pontos finais,

o tempo é um córrego sujo

que se suja com o que há dentro,

por fora e em volta.

A culpa do lixo não é da água,

mas das coisas imundas que a toca.

O tempo é a água

e as coisas que tocam a água

mergulham no tempo.

O tempo é água

e nós somos peixes

nadando aqui dentro.


Contarei com a ajuda das Musas

para contar a história da humanidade,

o começo, seu meio e o ínicio

desta nossa destruição.

Também pondero

se o caminho seguido

nos leva mais próximo

da próxima sequência de extinção

ou se há possibilidade de volta

para todo o caos que chacoalha

a sujeira que nos engloba

ou se não há mesmo mais volta,

só bastando aceitar a merda

e se esconder de volta na toca.


Essa é a história

de como nos arrancaram a arte,

de como mataram os sonhos

nos transformando em uma biscate,

numa puta por dinheiro

num lixo sem fim.

É a história de como fizeram

da nossa existência

um mar de dor para mim.


Essa é a história que não querem te fazer ouvir.

Essa é a história que tentam esconder,

pois nada nela vai deixá-los feliz.


A história do capitalismo,

a história do que é o comunismo,

a história do Brasil

e sua resposta à colonização.

Essa história começo pelo básico

fazendo, então, minha apresentação:

Sou Terra de Moraes

Notaroberto Custódio,

apenas Terra para os íntimos,

apenas Terra para os próximos.

Sou Terra Pessoa para o mundo,

escritor, poeta e profeta

abençoado pelos anjos,

filho de um Deus, mas também

filho de Flávio e Priscila, quem me pariu,

dois jovens adolescentes

arriscando cuidar de uma infância

a ser vivida em meio de guerras e covardias.


Filhos de pobres sem nada,

professores mais tarde

formados pela USP,

a melhor faculdade do Brasil.

Neto de um paisagista,

bisneto de pedreiros,

neto de avós comuns,

bisneto de quatro bisas

cujas histórias se perderam no além,

pois mulher não-branca naqueles tempos

era nada menos que ninguém.

Como brasileiro mais fraco,

tenho raízes portuguesas,

também italianas.

E como os fortes,

sou herança de povos indígenas

se casando com gente africana.

Como alguns poucos milhões,

descendo de lituanas e libanesas,

mais que isso já não sei

e nunca virei a saber com consciência.

Tenho três irmãos

que amo com muito orgulho.

Tenho gatos e cachorros por perto

que também amo muito.

Não vou entrar no mérito

dos transtornos e das vezes que tentei me matar,

não vou falar das drogas,

nem dos abusos que estive a passar.

Não vou comentar meus erros

ou os erros que cometeram contra mim.

Não vou falar das paixões

nem de namoros que estive a servir.
Não vou falar da minha fé,

nem dos guias que me guardam,

não vou falar do clima seco,

mas vou comentar do canto dos pássaros

que ecoam cada vez mais baixo

seus piados tão espaçados

por conta do concreto em volta

que cresce e rouba espaço.


Vou falar sobre o menino

que cata caca do nariz,

chuta pedra na calçada,

vende no semáforo bala

podendo voltar pra casa

sem trocado nenhum na mala.

Vou falar sobre o fim do mundo

e a vontade por matar

cada filha da puto injusto,

os políticos de merda

que fingem com a gente se importar.

Vou falar sobre o ódio

que sinto ao ver

o tanto de desmerecimento que há

com a população que busca viver.

Vou falar dos bichos que migram,

esbarrando em cercas, arames e fábricas.

Falo sobre o aquecimento global,

o desrespeito com o reino animal,

a morte da vegetação natural

e o descaso com o que é vida real.


Sobre tanto há a dizer,

tanto guardado ainda pra falar,

sobre tanto há pouco que sobra,

sobra pouco e há muito a chorar.

Dá vontade de rasgar a garganta,

de comer carne humana,

ser monstro mau e sucumbir à loucura.

E não espero que entendam,

não busco provar um ponto.

Quero logo a destruição desta brasa,

reverenciar a retomada do povo.

Não quero justiça divina,

quero justiça feita com a mão

de cada oprimido em guerra

e de cada mãe que não recebeu pão.

Sinto tanto ódio,

mas também estou doente,

me roubaram a arte

o que nos impossibilita ser decente.

Arrancaram minha essência

e disseram: seja doido!

Sendo doido agora estou,

como fruto deste sistema

que a sua própria bomba atômica criou.


No foda-se tudo morre,

então foda-se o capitalismo,

fodam-se cada político,

os ingratos e os injustos.

Fodam-se os homens maus

que adoram se fazer de santos.

Foda-se a hipocrisia

guardada no seu coração.

Foda-se a doença

que tem cura e tem solução.

Foda-se a mentira, a fraqueza e a covardia.

Foda-se sua farta mesa

e o dinheiro que conseguiu com violência

e exploração.

Fodam-se os que se acham certos,

banhado de sangue vocês estão!

Foda-se a minha rima mal feita

e a sua impressão da arte.

Quero que se foda toda morte

e o que dizem ser falta de sorte!

Foda-se o que pensam de mim,

o que você deseja para o mundo!

Foda-se sua falsa ambição

e esse seu desejo por querer tudo!

Foda-se a sua vida de mentira,

quero mesmo é que se fodam.

Estou de boa construindo um livro

que busca denunciar tudo que nos sufoca.


Busco denunciar você,

sua família e a hipocrisia.

Busco denunciar teu ódio,

quero é te pegar na mentira!

Quero é te pegar no soco,

quero acabar com a sua raça,

desejo muito ser violento,

como a polícia é violenta de graça.


Eu quero que tudo se foda,

que a loucura me pegue

e que toda dor do mundo

no fim seja só uma bosta célebre.

Desejo mortes,

se assim tiverem de morrer.

Quero a vontade de Deus feita,

que toda profecia se cumpra,

se assim tiver de ser.

Que os anjos guardem as crianças,

que os justos sejam perdoados,

que mulheres, trans e gays saibam

que está tudo bem e que são amadas.

Que as minorias encontrem a paz que merecem,

e que os ricos se fodam muito,

que bilionários se manquem logo

ou vão perder tudo para o fogo.

E a verdade é que não quero amaldiçoar ninguém,

só que Deus faça tudo se encontrar.
Que o pão de cada dia não me falte,

que ninguém depois de mim sofra

e que eu possa bem O honrar.


Sou filho do meu pai,

aprendi desde cedo a dividir

e por isso eu escolho escrever

como forma de me garantir

meu pão de cada dia

que é minha mão-na-massa que faz.

Eu sei cozinhar, tenho a energia criadora do meu pai.

Mas como um bom homem moderno,

apenas estou aqui a enrolar

este grande texto poético

que firmei compromisso de elaborar.

É engraçado escrever assim, com tanta consciência.

Mas a arte é espaço disto: sigilos e sutilezas

da mente e sua intenção;

a arte até me arrancaram,

mas não me tiraram o poder de criação.

Penso se posso ver o futuro.

Penso se posso ver o maldito futuro.

Se é assim que o mundo deve ser...

Me dói tanto pensar um Brasil

que me mata, e ignora meu viver.

Qual o momento de acabar poesia,

Quando devemos nos despedir?

Queria escrever um longo livro,

com caracteres infinitos,

mas percebo que não é assim

que vou bem expressar

o que a Poesia me pede,

o que a Natureza implora

que seja dito entre as bocas

desta minha espécie, simplória.


Arrancaram de nós a arte,

e nós vamos arrancar a vitória
se utilizando daquilo que não querem

nos ver usar e por isso nos rouba:

arte, voz, poesia;

não vamos permitir que nos tirem

o que nos restou de alegria!


Cada palavra saída

da mente de artistas

com afinidade com a arte

é o verdadeiro caminho

para viver esta falsa epopéia

dos tempos modernos,

a contemporaneidade.


Não vão nos calar,

nem impedir de fazer chegar

a mensagem que grita MUDANÇA,

ABRAM CAMINHOS,

que Deus está aqui pra nos guiar.


Falo que nos roubaram,

porque nos roubaram mesmo.

Mas não importa quanto nos roube,

a gente renasce, reencarna

e vai cobrar o triplo do preço.


Me perdoem a tentativa falha

de escrever esta epopéia mal elaborada.

A verdade é que é tudo desculpa

para que você só leia e tenha dentro de ti

que estamos apenas no início da caminhada

até a verdadeira transformação

que está começando tem mais de mil anos

e só vai chegar ao seu fim

quando cada um escutar seu irmão,

e após a escuta

se silenciar

tomar um tempo pra digerir e pensar,

aí começar a lutar porque não aceita mais a indigestão

capitalista e exploratória

que fazem o teu tempo perder

entre demandas longe do que você quer

ou gostaria mesmo de fazer.


E assim Terra Pessoa finaliza

sua falsa epopéia contemporânea, dizendo:

não esqueçam nunca

de quem te acompanha.
Há pessoas lutando por ti,

há amor entre os becos e vielas;

e apesar de todo lixo e sujeira,

não vamos nos esquecer delas:

as bondades, as felicidades,

e tudo que nos motiva

a continuar a levantar velas

no meio desse mar revolto

que não escolhemos navegar,

que a gente lembre que tudo passa

inclusive a ideia do impossível

que querem nos fazer acreditar.


Toda revolução é impossível,

até que se torne inevitável.

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