Convoco as Musas para falar sobre como roubaram de nós a possibilidade de falar de arte, de ser artista.
Roubaram de nós a possibilidade
de alimentar a necessidade
por sol e alimento sem veneno
que nosso corpo pequeno
sente.
Não querem que saibam
que o albatroz se engasga
e mata seu próprio filhote
dando de comer tampinha de garrafa
que vem junto à sua caça.
Não querem que a gente pense
em aquecimento global,
em calota degelando,
em pinguim mil km nadando
para encontrar um local
para botar o seu ovo
e viver o seu normal.
Não querem que a gente se importe
com nosso lixo, com a falta de sorte,
com as crianças em escolas precárias,
com o sangue derramado e as promessas de morte.
Querem nos distrair de toda história humana,
que não dá mais para ser contada em uma só poesia,
é preciso reescrever uma obra grande como a Ilíada
para ser capaz de propagar
toda sujeira que vem ocorrendo
nos últimos milênios
em que nossa história humana
esteve a perdurar.
Roubaram de nós a possibilidade de ser artista,
de viver da planta, do sol,
de se hidratar e bem cuidar
do planeta que tanto amo,
da terra que tanto me abrigou,
do terreno que meus ancestrais
por aqui um dia caminhou.
Arrancaram de nós
a possibilidade de ser artista,
é preciso junto fazer política
e tentar de algum modo
alcançar quem ainda não entendeu
que pra mudança vir é necessário
não só saber das desgraças,
mas levantar da sala
e ouvir cada irmão
na luta, na rua,
nas praças, na sua
casa chorando por não ter pão.
Arrancaram de nós o ócio,
proibiram o descanso,
comercializam
os presentes que a natureza nos deu.
Me resta agora escrever um longo livro
sobre toda essa palhaçada
e esperar que minha palavra ecoando
no mundo alguma diferença faça.
Arrancaram de nós a possibilidade
de pensar na prospecção da arte,
de pensar em métrica e beleza,
de contemplar a pura existência.
Nos arrancaram a inocência.
Nos distanciaram de Deus
a ponto da gente questionar
se a existência de algo maior que Eu
é possível de se realizar,
sendo óbvio que é,
pois ser humano não é porra nenhuma,
porra alguma é a natureza
e o ciclo de cada verdura
que amadurece para alimentar
cada animal nessa terra
adoecida que não temos tempo de cuidar.
Arrancaram de nós a arte,
nos transformaram em homem moderno
onde sujeira nos permeia.
Somos esquizofrênicos, birutas.
E a loucura em mim machuca.
Em mim machuca a loucura,
em mim machuca a dor,
em mim machuca a dúvida
de se é errado falar de amor
quando tudo que quero é amor,
o que quero é ser amor,
mas como amar meu inimigo
que destrói e rouba tudo de mim
sem respeitar o que necessito,
desprezando o sonho que aspiro,
me causando dores no rim?
Como amar o injusto
e as imagens de destruição que vi?
O que faço com tanta desgraça?
Desejamos morrer, mas não podemos assim.
Não cabe tudo numa só poesia,
escreverei um livro então
onde as cento e mil linhas
vão contar a história desse mundão.
Vão anunciar a vinda de um milagre,
contar uma outra possibilidade
que vai trazer ao mundo
a esperança da real verdade
a respeito da história do imundo
que tentou destruir famílias,
esquecendo que em Deus
todo injusto desmorona.
Não vou nem escrever poesia,
só vou organizar palavras
onde cada maldita linha
é a elaboração de um disco,
um disco que nunca arranha,
pois, deveras, nunca existiu.
Será apenas mais uma obra
da dor de alguém que faliu.
De alguém que faliu
em desistir,
alguém que fracassou
em tentar se matar,
contarei a história de alguém
que falhou em servir
a sociedade que tenta matar
de cansaço, de ódio, mentira
a respeito do bom capitalismo
que nos suga tudo sem fatigar,
que nos consome toda pureza
e a perspectiva de um bom lugar pra morar.
Esta é a história
da sociedade contemporânea,
fruto de um corpo
com uma história de mais de mil anos.
Aqui não existem pontos finais,
o tempo é um córrego sujo
que se suja com o que há dentro,
por fora e em volta.
A culpa do lixo não é da água,
mas das coisas imundas que a toca.
O tempo é a água
e as coisas que tocam a água
mergulham no tempo.
O tempo é água
e nós somos peixes
nadando aqui dentro.
Contarei com a ajuda das Musas
para contar a história da humanidade,
o começo, seu meio e o ínicio
desta nossa destruição.
Também pondero
se o caminho seguido
nos leva mais próximo
da próxima sequência de extinção
ou se há possibilidade de volta
para todo o caos que chacoalha
a sujeira que nos engloba
ou se não há mesmo mais volta,
só bastando aceitar a merda
e se esconder de volta na toca.
Essa é a história
de como nos arrancaram a arte,
de como mataram os sonhos
nos transformando em uma biscate,
numa puta por dinheiro
num lixo sem fim.
É a história de como fizeram
da nossa existência
um mar de dor para mim.
Essa é a história que não querem te fazer ouvir.
Essa é a história que tentam esconder,
pois nada nela vai deixá-los feliz.
A história do capitalismo,
a história do que é o comunismo,
a história do Brasil
e sua resposta à colonização.
Essa história começo pelo básico
fazendo, então, minha apresentação:
Sou Terra de Moraes
Notaroberto Custódio,
apenas Terra para os íntimos,
apenas Terra para os próximos.
Sou Terra Pessoa para o mundo,
escritor, poeta e profeta
abençoado pelos anjos,
filho de um Deus, mas também
filho de Flávio e Priscila, quem me pariu,
dois jovens adolescentes
arriscando cuidar de uma infância
a ser vivida em meio de guerras e covardias.
Filhos de pobres sem nada,
professores mais tarde
formados pela USP,
a melhor faculdade do Brasil.
Neto de um paisagista,
bisneto de pedreiros,
neto de avós comuns,
bisneto de quatro bisas
cujas histórias se perderam no além,
pois mulher não-branca naqueles tempos
era nada menos que ninguém.
Como brasileiro mais fraco,
tenho raízes portuguesas,
também italianas.
E como os fortes,
sou herança de povos indígenas
se casando com gente africana.
Como alguns poucos milhões,
descendo de lituanas e libanesas,
mais que isso já não sei
e nunca virei a saber com consciência.
Tenho três irmãos
que amo com muito orgulho.
Tenho gatos e cachorros por perto
que também amo muito.
Não vou entrar no mérito
dos transtornos e das vezes que tentei me matar,
não vou falar das drogas,
nem dos abusos que estive a passar.
Não vou comentar meus erros
ou os erros que cometeram contra mim.
Não vou falar das paixões
nem de namoros que estive a servir.
Não vou falar da minha fé,
nem dos guias que me guardam,
não vou falar do clima seco,
mas vou comentar do canto dos pássaros
que ecoam cada vez mais baixo
seus piados tão espaçados
por conta do concreto em volta
que cresce e rouba espaço.
Vou falar sobre o menino
que cata caca do nariz,
chuta pedra na calçada,
vende no semáforo bala
podendo voltar pra casa
sem trocado nenhum na mala.
Vou falar sobre o fim do mundo
e a vontade por matar
cada filha da puto injusto,
os políticos de merda
que fingem com a gente se importar.
Vou falar sobre o ódio
que sinto ao ver
o tanto de desmerecimento que há
com a população que busca viver.
Vou falar dos bichos que migram,
esbarrando em cercas, arames e fábricas.
Falo sobre o aquecimento global,
o desrespeito com o reino animal,
a morte da vegetação natural
e o descaso com o que é vida real.
Sobre tanto há a dizer,
tanto guardado ainda pra falar,
sobre tanto há pouco que sobra,
sobra pouco e há muito a chorar.
Dá vontade de rasgar a garganta,
de comer carne humana,
ser monstro mau e sucumbir à loucura.
E não espero que entendam,
não busco provar um ponto.
Quero logo a destruição desta brasa,
reverenciar a retomada do povo.
Não quero justiça divina,
quero justiça feita com a mão
de cada oprimido em guerra
e de cada mãe que não recebeu pão.
Sinto tanto ódio,
mas também estou doente,
me roubaram a arte
o que nos impossibilita ser decente.
Arrancaram minha essência
e disseram: seja doido!
Sendo doido agora estou,
como fruto deste sistema
que a sua própria bomba atômica criou.
No foda-se tudo morre,
então foda-se o capitalismo,
fodam-se cada político,
os ingratos e os injustos.
Fodam-se os homens maus
que adoram se fazer de santos.
Foda-se a hipocrisia
guardada no seu coração.
Foda-se a doença
que tem cura e tem solução.
Foda-se a mentira, a fraqueza e a covardia.
Foda-se sua farta mesa
e o dinheiro que conseguiu com violência
e exploração.
Fodam-se os que se acham certos,
banhado de sangue vocês estão!
Foda-se a minha rima mal feita
e a sua impressão da arte.
Quero que se foda toda morte
e o que dizem ser falta de sorte!
Foda-se o que pensam de mim,
o que você deseja para o mundo!
Foda-se sua falsa ambição
e esse seu desejo por querer tudo!
Foda-se a sua vida de mentira,
quero mesmo é que se fodam.
Estou de boa construindo um livro
que busca denunciar tudo que nos sufoca.
Busco denunciar você,
sua família e a hipocrisia.
Busco denunciar teu ódio,
quero é te pegar na mentira!
Quero é te pegar no soco,
quero acabar com a sua raça,
desejo muito ser violento,
como a polícia é violenta de graça.
Eu quero que tudo se foda,
que a loucura me pegue
e que toda dor do mundo
no fim seja só uma bosta célebre.
Desejo mortes,
se assim tiverem de morrer.
Quero a vontade de Deus feita,
que toda profecia se cumpra,
se assim tiver de ser.
Que os anjos guardem as crianças,
que os justos sejam perdoados,
que mulheres, trans e gays saibam
que está tudo bem e que são amadas.
Que as minorias encontrem a paz que merecem,
e que os ricos se fodam muito,
que bilionários se manquem logo
ou vão perder tudo para o fogo.
E a verdade é que não quero amaldiçoar ninguém,
só que Deus faça tudo se encontrar.
Que o pão de cada dia não me falte,
que ninguém depois de mim sofra
e que eu possa bem O honrar.
Sou filho do meu pai,
aprendi desde cedo a dividir
e por isso eu escolho escrever
como forma de me garantir
meu pão de cada dia
que é minha mão-na-massa que faz.
Eu sei cozinhar, tenho a energia criadora do meu pai.
Mas como um bom homem moderno,
apenas estou aqui a enrolar
este grande texto poético
que firmei compromisso de elaborar.
É engraçado escrever assim, com tanta consciência.
Mas a arte é espaço disto: sigilos e sutilezas
da mente e sua intenção;
a arte até me arrancaram,
mas não me tiraram o poder de criação.
Penso se posso ver o futuro.
Penso se posso ver o maldito futuro.
Se é assim que o mundo deve ser...
Me dói tanto pensar um Brasil
que me mata, e ignora meu viver.
Qual o momento de acabar poesia,
Quando devemos nos despedir?
Queria escrever um longo livro,
com caracteres infinitos,
mas percebo que não é assim
que vou bem expressar
o que a Poesia me pede,
o que a Natureza implora
que seja dito entre as bocas
desta minha espécie, simplória.
Arrancaram de nós a arte,
e nós vamos arrancar a vitória
se utilizando daquilo que não querem
nos ver usar e por isso nos rouba:
arte, voz, poesia;
não vamos permitir que nos tirem
o que nos restou de alegria!
Cada palavra saída
da mente de artistas
com afinidade com a arte
é o verdadeiro caminho
para viver esta falsa epopéia
dos tempos modernos,
a contemporaneidade.
Não vão nos calar,
nem impedir de fazer chegar
a mensagem que grita MUDANÇA,
ABRAM CAMINHOS,
que Deus está aqui pra nos guiar.
Falo que nos roubaram,
porque nos roubaram mesmo.
Mas não importa quanto nos roube,
a gente renasce, reencarna
e vai cobrar o triplo do preço.
Me perdoem a tentativa falha
de escrever esta epopéia mal elaborada.
A verdade é que é tudo desculpa
para que você só leia e tenha dentro de ti
que estamos apenas no início da caminhada
até a verdadeira transformação
que está começando tem mais de mil anos
e só vai chegar ao seu fim
quando cada um escutar seu irmão,
e após a escuta
se silenciar
tomar um tempo pra digerir e pensar,
aí começar a lutar porque não aceita mais a indigestão
capitalista e exploratória
que fazem o teu tempo perder
entre demandas longe do que você quer
ou gostaria mesmo de fazer.
E assim Terra Pessoa finaliza
sua falsa epopéia contemporânea, dizendo:
não esqueçam nunca
de quem te acompanha.
Há pessoas lutando por ti,
há amor entre os becos e vielas;
e apesar de todo lixo e sujeira,
não vamos nos esquecer delas:
as bondades, as felicidades,
e tudo que nos motiva
a continuar a levantar velas
no meio desse mar revolto
que não escolhemos navegar,
que a gente lembre que tudo passa
inclusive a ideia do impossível
que querem nos fazer acreditar.
Toda revolução é impossível,
até que se torne inevitável.