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Conversa Aberta #12 - Tempo

Eu tô vivo. Respirando, e sempre que vejo que estou travado na escrita começo pelo óbvio. Algo que aprendo cada vez mais ao longo dos anos é o quanto o óbvio não só precisa ser dito, mas internalizado. A internalização se faz a partir da repetição. Estou aprendendo que é bom interromper ciclos. Aprendo que a vida é extensa, longa e tão bonita. Mas sou também um bicho assustado. Sou tanta coisa. É bom ser muita coisa. Diz muita coisa ser um monte de coisa. O silêncio a respeito das coisas diz um monte de coisa e, caramba, não há nada melhor no mundo que o dizer. Algo muito específico a respeito da humanidade me irrita. Não sei dizer exatamente o quê, mas é   isso que não entendo qual a diferença é conceitualizar ou não. Vai ser capaz de mudar o curso do rio? Esse rio tá se construindo ou já tá dado, pronto?, é destino a gente cair num fim absoluto ou há como as coisas serem diferentes?, a humanidade está fadada ao caos ou é possível sair da inércia?  Ultimamente, o tempo v...

Conversa Aberta #11 - Envelhecer

Há algo terrível em envelhecer. Uma morte, uma luz. Vejo meu corpo no espelho, a pele, o cabelo, estou em busca dos maus  sinais. Penso nos meus hábitos terríveis  e no quanto tive uma juventude imersa em hedonismos e loucura, além de uma busca insana por respostas que, agora que tenho, me sinto vazio. Dos dezoito até meus vinte e quatro tudo foi meio igual (por dentro). Repentinamente, estou com quase vinte e seis e parece que entendi tudo . Do nada, já não há mais espaço para inocências e tudo o que você precisa fazer é  agir , mas não sabe executar. É uma máquina de contemplação e a velhice te aponta isso: está envelhecendo e se silenciando. Mas não quero ficar calado, ou viver como seu eu nunca tivesse conhecido a plena alegria e um aconchegante amor. Não sou só alguém cheio de dores e traumas. Ninguém é. E não é preciso ser melancólico para ter legitimada a cicatriz. Nem precisa perder a fé, só porque outras pessoas são vazias. Virou mantra diário: não esquecer. Não ...

Poema #10 - Nossa Casa Cheia De Nossas Vozes

Tornou-se morte nosso amor. Por que escolheu sozinho o que nos diz respeito? Se algum dia pensei em te esperar, agora tudo é areia entre os dedos. Você escolheu minha solidão por mim. Foi viver teu sonho porque sim. Se entregou para uma paixão de um mês Mas não te julgo Faria igual Se estivesse solteiro Ou se fosse eu o próprio mal! Se orgulhe da escolha que fez Da relação que assassinou Encare o fundo dos olhos do amor que entregou ao acaso, ao caixão Encare e sustente na mão o peso de ter roído por completo o coração que percorreu o mundo por ti Sonhando sozinho o que acreditou sonhar contigo Mas, não Tornou-se morte a paixão Então, vá! Vá viver seu amor com Maria, se descobrir. Construa outras casas e me esqueça aqui escrevendo para você um livro das memórias que restou e sobre o café na pia que ainda não esfriou.

Poema #9 - Como Pode O Perfume Nascer Assim

O que resta é memória e com a memória eu faço arte Arte na verdade é poesia da poesia, um poema, este. Tenho vontade de dedicar uma Ode a você e brindar nosso Amor Tudo aquilo que nos fez sorrir Como a flor da goiaba virando fruto Meu destino foi você Agora sumido pelo mundo Distante do meu corpo Não sinto seu cheiro O que me resta é a memória dos dias bons que dormi em teu peito Mas a memória também faz questão de lembrar dos dias que, em prantos, me pus a chorar --- e onde estava você sua mão sumiu gritei socorro perdi meu posto já não sou o alguém que mais vai ligar Meu espírito conheceu tamanha aflição porque a alma já sabia do que fugia o coração: nosso tempo acabou! já não é mais para construir memórias, apenas reviva as que aí ficou entre dois corpos e finitos dias não esqueça o que no tempo alargou O que resta é memória Uma saudade inútil que machuca Sede por uma nova vida Desesperança. Meu corpo de terra mergulha no gozo e te lembra Resgata na memória tua língua, os dedos quen...

Conversa Aberta #10 - dia 13 de janeiro

 O ano acabou de começar e já podemos estar terminando ele? Algumas pessoas diriam que sim. Eu, pelo contrário, afirmo que está uma delicia viver este novo início de ano.  Quando criança eu era cheia das listas. Adorava listar minhas metas, por menor que fossem. Hoje parece que cultivei um bloqueio, como se tudo fosse pequeno, insignificante, desnecessário. Mas eu sei que não é, apesar de aparentar.  Quando jovem parecia que sabia me organizar melhor, mesmo que nenhuma das minhas medidas de ordem tenham acatado em... ordem. Pelo contrário, mais serviam para eu me embananar, procrastinar e, como num episódio de The Big Bang Theory onde os nerds discutem em cima do manual de instruções a respeito do melhor jeito de montar um guarda-roupa, atrasar o que poderia ser muito mais simples de ser resolvido.  Estou pensando em tudo que me foi roubado, tudo que me sabotei e sinto uma secreta inveja de todas as pessoas que ainda estão nos seus dezoito/dezenove anos, até as que e...

Conversa Aberta #9 - 2025

Começo a escrever este memorial com o coração entristecido. Fui abatido e me enterraram vivo. Mas eu mereço. Encerro assim então meu 2025: morto. O que é bom. A morte é o começo de um renascimento. Daqui, só transformação. Como foi meu 2025? O que eu vivi? Foi certamente um ano ruim, mas muito bom. Talvez só tenha aprendido tanto num ano quando ainda era apenas um bebê. Antes, se não era capaz de decodificar os signos da alma, hoje, ao menos, consigo entender por onde começa um trabalho de tradução. Escutar é uma das habilidades mais bonitas e preciosas. Aprendi também nesse ano de 2025 que humildade e responsabilidade são difíceis de sustentar. Quero ser um humano forte, então preciso saber sustentar coisas difíceis. Pretendo me fortalecer na academia para o ano de 2026. Mas também me fortalecer na mente, no espírito, no emocional. Quero casar. Mas ser famoso, uma celebridade, também. O que vai vir antes? Será que algum dos dois chega? Não sei sem em 2026, mas em 2025 certamente camin...

Ensaio #5 — O direito de existir na diferença: uma leitura de “Sintomas mentais e a ordem pública”, de Erving Goffman, em diálogo com “O metafísico no homem”, de Merleau-Ponty

  introdução A leitura de Sintomas mentais e a ordem pública , de Erving Goffman, desloca algo que, no cotidiano, costumamos tomar como um dado factual: nossa sociedade é isso e não há como mudar. No entanto, aquilo que geralmente aparece como organização natural da vida social revela-se, pouco a pouco, como uma construção sustentada por normas, expectativas e convenções frágeis. A ordem deixa de ser um dado e passa a ser um arranjo delicado, sempre à beira do conflito. Quando esse texto é colocado em diálogo com O metafísico no homem , de Merleau-Ponty, o deslocamento se aprofunda. Se, em Goffman, a ordem é um produto social, em Merleau-Ponty a experiência humana aparece como algo anterior a qualquer sistema de normas. O existir vem antes da regra. A percepção vem antes da classificação. O corpo vivido vem antes do diagnóstico. Logo nas primeiras linhas, Goffman afirma que aquilo que os psiquiatras reconhecem como doença mental é, quase sempre, visto antes pelo público como co...